‘‘O olho da nascente sempre desaprova o itinerário do rio.’’
Jean Cocteau (1889-1963), escritor francês
Um avanço de 413%
Eis o que está a perigo na colisão do Brasil com a Argentina na ponte comercial do Mercosul: um intercâmbio de mercadorias que progrediu, em sete anos, de US$ 3,6 bilhões para US$ 18,5 bilhões por ano. Um avanço de 413% para parceiros que andam marcando passo nas vendas para o restante do mundo. Pelo cheiro da brilhantina, o Mercosul tende a ser, para o Brasil, em 2001, um mercado maior que o dos Estados Unidos.
A onda protecionista que se agigantou na Argentina (desde o ajuste cambial no Brasil) se apóia no tripé do fracasso econômico do governo nesta reta final para as urnas presidenciais de outubro: 1) recessão patogênica e não corretiva; 2) desemprego rosca sem-fim, de 16% em junho, o dobro da taxa brasileira do IBGE; 3) câmbio imexível e autofágico.
A paridade fixa dólar/peso, que completa agora oito anos corridos, acabou com a inflação anual de até cinco dígitos. Mas desmantelou a competitividade internacional da indústria argentina, que já estava abaixo da brasileira. A Argentina só não afundou na recessão desde 1992 exatamente porque o Mercosul deu de presente ao país um mercado duas vezes maior que a própria Argentina - um mercado entreaberto chamado Brasil.
Com a correção cambial no Brasil, este ano, a mágica platina conheceu seu Mister M. A indústria do aço, do automóvel, do papel, dos calçados, das confecções, dos alimentos industrializados, dos artigos de higiene pessoal, da eletrônica de consumo - nenhum desses segmentos tem tutano para encarar o similar brasileiro com desvalorização cambial de 45%.
Os industriais argentinos, lobistas competentes, servidos por burocratas permissivos, descobriram-se em sinuca de bico. Um ajuste cambial na Argentina, com ruptura do ‘‘currency board’’, está fora de cogitação. As fábricas estão endividadas em dólar nos próprios bancos argentinos. Haveria uma quebradeira em cascata, sem cascata, antes das eleições de outubro.
Saída de emergência? Resolução unilateral permite ao governo argentino adotar ‘‘medidas de salvaguarda’’ contra qualquer produto importado, independentemente do pedido de SOS do setor argentino prejudicado. O tratado do Mercosul que se dane!




Secos & Molhados
Guerra é guerra
- A resolução argentina puxou o gatilho da retaliação brasileira. Um duplo retrocesso na carpintaria do mercado comum previsto para 2006. A colisão desta semana enfraquece a diplomacia no Mercosul na melindrosa negociação de futuras áreas de livre comércio com a União Européia e os Estados Unidos.
Treinamento
- Escreve o embaixador argentino no Brasil, Jorge Hugo Herrera Vegas: ‘‘O mercado comum do Mercosul é uma solução e não uma ameaça. Significa nosso treinamento em comércio exterior para quando a demanda do mercado global se recompuser. O Mercosul tem tudo para ser o principal ator do mercado mundial de alimentos.’’
Sintonia fina
- O presidente da União Industrial Argentina (UIA), Osvaldo Rial, diz que o Mercosul não precisa de moeda única, mas de ‘‘sintonia fina’’ nas políticas de cada parceiro do bloco: ‘‘Pois o Brasil não nos avisou que deixaria o câmbio flutuar livremente.’’ Ora! Desde quando se passa aviso prévio sobre mudanças em políticas de câmbio?

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