‘‘A estabilidade monetária é o fator condicionante. O crescimento econômico é o fator condicionado. E não o contrário.’’
Franco Modigliani, Prêmio Nobel de Economia
Salto no escuro?
CCom índice de popularidade abaixo da linha d’água, o presidente Fernando Henrique Cardoso serviu-se da cosmética ministerial para um discurso solene: reorientar as políticas econômicas de gabinete para um longo ciclo de crescimento sustentado da poupança, do investimento, do consumo, da produção e do emprego - não necessariamente pela ordem.
Na retórica palaciana, o programa de estabilização, já no sexto ano de atribulada porém vitoriosa carreira, está finalmente maduro para autorizar expedientes públicos e privados de reativação da economia ainda em transe. A inflação não escapou da jaula no choque cambial de janeiro e fevereiro e não deve botar as garras de fora neste tarifaço mal explicado de junho e julho.
Em sendo assim, o presidente disse textualmente, na posse dos novos ministros, que ‘‘está havendo mudança de tônica no governo’’ e que o País ‘‘está pronto para alçar um vôo maior’’. Amém. E avisou a quem interessar possa que não mais vai admitir ‘‘que discussões menores prejudiquem projetos maiores’’.
O desafio técnico da reativação da economia é um problema político de grande envergadura no Brasil e no mundo: a reforma do Estado perdulário, com sua mão de gato bem maior que o bolso da sociedade. A retomada dos negócios privados passa, necessariamente, pelo cadáver dos déficits públicos. Rombos de caixa até aqui financiados por uma dívida pública mobiliária que acaba de totalizar meio trilhão de reais!
Eis aí o mata-burros do relançamento do PIB para uma expansão anual de 7%, média histórica de Dutra a Geisel. Taxa de crescimento tida como mínima para deslocar o nível de emprego formal (e informal) do declive para o aclive. Conta fácil: PIB de 2,4% cobre apenas a recepção da bolha demográfica ainda em busca do primeiro emprego; outros 4,5% do PIB são resultantes dos ganhos de produtividade da economia que se moderniza (aumento de produto sem aumento do emprego).
Resumo da ópera do malandro, diria Chico Buarque: para soltar as amarras do setor privado (com sua energia e sua apetência brutalmente reprimidas desde a entrada dos anos 80), seria preciso triplicar a oferta de crédito bancário ao setor produtivo, com a redução dos juros da ponta para um terço das taxas de hoje. Essa distensão monetária exige um choque de austeridade orçamentária digno do trabalho de 12 Hércules. Vestidos de estadistas.




Secos & Molhados
Perfil 1
- A revista Veja, desta semana, traça meu perfil profissional (e pessoal) em duas páginas produzidas por Ricardo Galuppo. A revista me atribui um certo dom de profecia. Na análise dos desdobramentos do choque cambial, esta coluna, segundo ela, foi a que viu mais longe. Acertando mais. Ou errando menos.
Perfil 2
- Pessoas ouvidas a meu respeito pela Veja, como Pedro Malan, Celso Lafer e Mailson da Nóbrega, grifaram no meu trabalho diuturno de jornal, rádio, televisão e palestras os traços da clareza e do otimismo. Clareza é dever de ofício. Otimismo é lição de vida. Na economia, se o otimismo nada melhora, o pessimismo tudo piora. Sejamos, pois, otimistas. Ou melhor: realistas.
Perfil 3
- ‘‘Manchetes alarmistas são produzidas por editores alarmados, mais chegados ao teatro do terror’’, escreveu Alberto Dines na Vip/Exame. Rescaldo do regime militar. A síndrome da mídia chapa-branca passou a bola quadrada ao complexo da mídia coisa-preta. Não menos fantasiosa. Ou não menos desonesta.

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