‘‘O dólar não tem mais futuro como moeda universal. Mas o inglês já fez sua estréia como o primeiro idioma global.’’
Juliano Bastide, sociólogo

Ditadura do padrão
Dizem os estudiosos da Idade Digital que o DNA da economia da informação é a conectividade. Ou o poder da convergência. Tudo passa a funcionar em rede: em cadeia, em conexão. Uma prerrogativa da explosão das tecnologias da informação. O mercado pactuado em rede assume o perfil de uma formidável parceria das empresas com os trabalhadores, com os fornecedores, com os distribuidores, com os consumidores e - pasmem! - com os competidores.
O mercado do futuro, que está ali no primeiro quartel do terceiro milênio, não será o mercado livre, darwiniano. Nem o mercado puro, leibniziano. Será um mercado pactuado por todos os elos da corrente econômica, sob o manto do Estado democrático, moderno, enxuto, arbitral.
A economia da informação, tocada pela conectividade, empurra o mercado para o que o economista americano Brian Arthur, teórico da Idade Digital, chama de ‘‘ditadura do padrão’’. Empresas e mercados funcionando cada vez mais em rede obrigam-se a adotar o mesmo padrão tecnológico, o mesmo padrão administrativo, o mesmo padrão mercadológico, o mesmo padrão institucional (o da isonomia tributária e financeira em escala global).
O que é o sucesso de Microsoft, avaliada em meio trilhão de dólares, que não o da supremacia de um padrão tipo Windows, que hoje aciona 88% dos 270 milhões de computadores espalhados pelo mundo? O padrão faz da fartura e não da escassez o valor econômico fundamental (invertendo o postulado maior da própria ciência econômica). O padrão igualmente subverte a lei econômica dos ‘‘lucros decrescentes’’ (deseconomia de escala) das grandes empresas e estabelece o reinado dos lucros crescentes (da conectividade).
E tome a vocação monopolista dos detentores do padrão. O valor dos bens e serviços em rede declina no preço na justa medida em que se expande no lucro. Para Brian Arthur, todos os produtos da economia da informação são regidos por essa nova lei econômica. Eis a chave dos lucros crescentes da Microsoft, da Sun ou da Lucent: o mercado (ou o usuário) tem ganho extra quando dispõe de um sistema-padrão. O fator determinante da decisão de compra não é tanto a qualidade ou a inovação, mas a compatibilidade ou a conexão.




Secos & Molhados
Yes, mister
- Nove em cada dez softwares e nove em cada dez sites da Internet têm no inglês o idioma-padrão. Pode não ser o melhor idioma (software), mas não há mais espaço para uma língua diferente em cada mercado ou em cada negócio ou contrato. No caso, a lei dos lucros crescentes enche a bola do idioma dos Beatles.
Desde 1588
- O inglês se impôs no mundo dos negócios desde a derrota da Grande Armada espanhola em 1588. Foi ali que se deu a decolagem da rede global de comércio do Império Britânico. Neste século, a hegemonia econômica e financeira dos Estados Unidos, mais Hollywood et caterva, concretaram o padrão idiomático da Idade Digital.
Como é que é?
- O quase monopólio do inglês na economia da informação é deplorado pela ONU em seu Relatório de Desenvolvimento Humano 1999, divulgado na semana passada. Ela lembra que apenas 11% dos terrâqueos têm o inglês como língua titular, o documento da ONU, que é global, foi editado em inglês.

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