‘‘Quando o dólar sobe, é falta de confiança nos rumos da Economia. Quando o dólar cai, é especulação pura e simples.’’
José Maria de Jesus, motorista de táxi
Quem tem juízo?

Na entrada de janeiro, o dólar valia R$ 1,45, mas estava aprisionado na banda cambial ao redor de R$ 1,20. Com a livre flutuação, emplacada de modo trapalhão, a moeda americana chegou a ser cotada acima de R$ 2,20, por obra e (des)graça dos deserdados filhos do ‘‘black’’ branco de susto. O que deveria ter sido um ajuste técnico de 20%, se tanto, como esperava o mercado, transformou-se num ‘‘overshooting’’ asiático de 85%.
Com direito a uma bolha inflacionária de 5,4% em fevereiro e projeções de até 85% para a inflação gregoriana de 1999. Houve gente séria que quase emigrou para a Austrália.
Até por conta do repique estrepitoso dos IGPs, IPAs e IPCs da vida, o valor real do dólar escalou para R$ 1,67 na virada de abril. Uma taxa cambial de equilíbrio que o mercado em liberdade (e já então a carga plena) acabaria por localizar e sancionar. Sem mistério para as leis do mercado. Mas com ‘‘muita surpresa’’, quase perplexidade, para a quase totalidade dos cenaristas da catástrofe, coveiros intermitentes do Plano Real. Aqui dentro e lá fora.
Quando a calmaria se fez, ali pela altura de maio, revertendo expectativas sinistras, sob o bálsamo de uma deflação mensal ‘‘inexplicável’’, eis que entra em campo a tropa de choque dos preços e tarifas ainda administrados (e mal) pelo Estado brasileiro. Antes, uma escalada tarifária para dourar a pílula das privatizações. Agora, nova arrancada tarifária para justificar propósitos oficiais até aqui não esclarecidos e menos ainda justificados.
Reequilíbrio dos preços relativos? O nivelamento teria de ser feito de cima para baixo e não mais de baixo para cima. Em cinco anos corridos de Real, a cesta básica do Dieese/Procon acumulou, na Grande São Paulo, uma inflação de apenas 18%. No mesmo período, as contas da telefonia enrolada subiram 313% e as tarifas dos transportes públicos 163%. Agora, escalada também da energia elétrica e dos combustíveis em geral.
Tudo na base da ‘‘caixa-preta’’ federal. Começando pela maior delas, a da Petrobrás. Quem tem juízo nessa nova cólica da estabilização? O governo tão endeusado ou o mercado tão execrado? O mercado. Ou melhor: todos os preços realmente competitivos do mercado.




Secos & Molhados
Efeito milonga
- De espirro em espirro, a Argentina é a nova neura dos mercados financeiros desajeitados. Cada vez mais afastados dos indicadores reais da economia real. E, por causa disso, vulneráveis a cascatas internas e a milongas externas.
Pelo não dito
- A milonga da semana foi a do candidato governista, o milongueiro Eduardo Duhalde. Ele se serviu do papa João Paulo II para desfraldar (e desdizer) o calote da dívida externa com aviso prévio...
Papa informa
- O papa já esclareceu: perdão pactuado da dívida externa dos 40 países mais pobres do mundo (pelo novo IDH da ONU) . Não é o caso da Argentina, localizada entre os 40 com maior Índice de Desenvolvimento Humano. Em 39º lugar.
Qual é o dólar?
- Com choque tarifário e cascata platina, nove em cada dez executivos do setor produtivo juram, por todos os juros, que a nova banda livre do câmbio seria, tecnicamente, para este segundo semestre, de R$ 1,70 no piso a R$ 1,80 no teto.

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