‘‘Nem tudo o que se enfrenta pode ser modificado. Mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado.’’
James Baldwin (1926-1993), escritor americano
Sem desconfiômetro
Falta de orçamento ou falta de desconfiômetro? Apenas uma em cada 50 prefeituras de todo o Brasil está preparada para enfrentar, sem problemas, o Bug do Milênio. É o que revela uma sondagem do Comitê Gestor do Programa Ano 2000. E, dos 27 Estados brasileiros, a maioria deles ainda está à margem do cronograma do Plano de Adequação ao Bug do Milênio.
Tradução: computadores e equipamentos ‘‘chipados’’ do setor público, ainda com campos de data com ano de dois dígitos, podem confundir o ano 2000 com o ano 1900. Com esse ‘‘grilo’’ (‘‘Bug’’) de programação, a gloriosa Idade Digital ameaça fazer do próximo ‘‘réveillon’’ não a festança da virada do século e do milênio, mas a lambança do colapso de serviços públicos em geral.
O governo federal não dorme de touca e trabalha pesado na remoção do Bug nas repartições, institutos, fundações e órgãos administrativos e operacionais dos três Poderes. E realiza marcação sob pressão nos grandes blocos de produção dos ex-monopólios estatais da energia, do petróleo, das telecomunicações e dos transportes. O patrulhamento é coordenado pela Secretaria de Administração e Patrimônio.
Quarta-feira, no Banco Central, seminário internacional sobre o desafio do Bug na América Latina demonstrou que a solução do problema exige ações conectadas em rede. É da própria natureza das tecnologias da informação o princípio da interconectividade. A tal ponto que já estaria na hora de substituir a palavra computador por conectador. A máquina de calcular virou máquina de conectar.
A interconexão, o caso do Bug, é o imbróglio maior. Se falhar o sistema de telecomunicação, haverá falhas em cadeia por todos os serviços direta ou indiretamente providos por ele. Se falhar o sistema de distribuição de eletricidade, o blecaute deixará a sociedade inteira sem a força e sem a luz. A mesma ruptura ocorrerá nas cadeias produtivas em geral. Se uma montadora de automóveis livrar-se do Bug no interior dela, ainda assim correrá o perigo de desligar as linhas de montagem se um pequeno fabricante de um humilde componente de um fornecedor do sistema de suspensão enroscar-se no Bug da própria conta e risco.
Estados e municípios devem cumprir tarefas ensinadas por cartilhas do Plano de Adequação e do Plano de Contingência. Avaliação federal de maio: apenas três Estados estão fazendo essa lição de casa no organograma certo e no cronograma exato: Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. O mais atrasado: Minas Gerais.




Secos & Molhados
Sem blecaute
- A partir de segunda-feira, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estará checando, em duas semanas, a remoção do Bug 2000 em todas as concessionárias estatais e privadas. Escoltada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Já testado
- Simulações do Bug 2000 em todas as concessionárias comprovaram, em junho, que o problema já está resolvido. Falta a simulação geral, interligada, marcada para 9 de setembro. Na data, será testado o Plano de Contingência do setor.
Alerta geral
- Pelo sim, pelo não, técnicos de Itaipu, maior usina do planeta, ficarão de prontidão na virada de 1999 para 2000. A usina inventariou 42 mil programas, alterando 7 milhões de linhas de código com campos de data. A adequação custa US$ 1,60 por linha.
Big bug, big-bang
- Lembrete de Cláudia Costin, titular da Secretaria de Administração e Patrimônio: quem causar danos a terceiros (por causa do Bug 2000 não removido) enfrentará o big-bang de processos judiciais no valor de milhões de reais.

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