Falta poupança
Para voltar a crescer pela média histórica de 7% ao ano, o Brasil vai ter de investir pelo menos 25% do PIB. Este ano, segundo o Ipea, estamos investindo perto de 17%. Incluída, nesse montante, a ração suplementar do capital externo. Bateria suficiente para crescer, no máximo, 4% ao ano.
Crescer 7% ao ano significa dobrar o produto nacional em apenas dez anos. Crescer 4%, só dobra em 18 anos. E mais: a expansão de 4% ao ano não é mais suficiente, como na década de 70, para ampliar a oferta de emprego. A modernização das empresas, em todos os setores da economia, eleva progressivamente a relação capital/emprego. Nas montadoras de automóveis, as fábricas em construção vão precisar de US$ 380 mil de investimento para cada vaga de trabalho. Na média do setor industrial, US$ 125 mil.
O problema de fundo, no caso brasileiro, está na escassez da poupança interna. O setor privado nacional está poupando menos de 15% do PIB. O setor público simplesmente deixou de poupar, naufragando no vermelho. Boa parte da poupança interna deixa-se reciclar no sistema financeiro, esnobando o sistema produtivo. E não é pouca a poupança entesourada em ativos reais ociosos.
Resultado: até para sustentar um PIB de 3% ao ano, insuficiente para reverter a queda do emprego geral, temos de apelar para a poupança externa. Seja o dinheiro de aluguel dos bancos, seja o capital direto das múltis, seja a venda de títulos das empresas brasileiras no mercado financeiro internacional.
Estudo do BNDES acende luz amarela no painel da economia: o setor industrial, ainda que resfolegando nas rampas do Real, volta a ocupar 85% da capacidade instalada. Em alguns ramos, como o da eletrônica de consumo, a taxa de ocupação aproxima-se de 95%.
No mercado de trabalho, pesquisa do IBGE consegue aumentar a aflição dos aflitos: a população brasileira em idade de trabalho (dos 16 aos 65 anos) deu de crescer mais rapidamente que a população total. Esta cresce 1,7% ao ano. Aquela, 2,6% ao ano. Caso típico de ‘‘transição demográfica’’, dizem os peritos do ramo. Com fortes impactos sobre o estoque de empregos.Obstáculos

- A economia não vai disparar porque falta poupança ou porque meio Brasil está na inadimplência? O economista americano Jeffrey Sachs, astro de Harvard, passou por aqui na semana passada e enumerou outros complicadores para o crescimento sustentável.
Equívocos
- Ah! Sachs diz que o problema do Real não está no câmbio defasado. Está na política fiscal muito frouxa e na política monetária muito apertada. A primeira não deixa o setor público ressuscitar. A segunda não deixa o setor privado acelerar. Nem poupar.
Prioridade
- Para Sachs, baixar os juros é mais importante do que corrigir o câmbio. Os juros afetam a economia inteira - incluídos os exportadores. O efeito cascata do crédito mais caro do mundo, diz Sachs, retira competitividade do conjunto das exportações.
Triplicando
- Até para voltar a crescer 7% ao ano, lembra o professor de Harvard, é preciso, no caso brasileiro, exportar pelo menos 20% do PIB. Ou US$ 160 bilhões no ano que vem. Até prova em contrário, vamos exportar apenas um terço disso. O Chile já exporta 27%.

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