‘‘Na economia moderna, não basta ter classe mundial. É preciso, cada vez mais, ter escala global.’’
Michael Porter, consultor americano


Tamanho é documento

Quando, na última semana de maio, a Comissão Européia descolou do Parlamento Europeu o ‘‘mandato negociador’’ para, na Cimeira do Rio, na última semana de junho, iniciar a articulação de um futuro mercado comum com a América Latina (a partir do Mercosul), o presidente da Brahma, Marcel Telles, ligou para o diretor-geral da Antarctica, Victorio Marchi, e deu a senha: ‘‘A Heineken vem aí!’’ Telles e Marchi já estavam com a pulga atrás da orelha desde 1997, início da usinagem diplomática da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca): ‘‘A Anheuser-Busch vem aí!’’
A fusão Brahma-Antarctica foi costurada em apenas um mês porque a idéia já estava madura há mais de um ano. A Brahma temia algo mais que uma futura invasão do mercado brasileiro (e sul-americano) pelos gigantes da cerveja sem bandeira. Temia a incorporação da Antarctica pela americana Anheuser-Busch ou pela holandesa Heineken. Ou pela dinamarquesa Calsberg. Medo ainda maior era o da própria Antarctica: o de uma futura desnacionalização da Brahma, segundo a lógica ofídica da formação de blocos econômicos e dos futuros acordos de livre comércio entre eles.
Escala global? Na cerveja, a AmBev já é a terceira do mundo em faturamento e a segunda em produção. Do alto de uma capacidade instalada de 90 milhões de hectolitros por ano, a global verde-amarela supera a Heineken (79 milhões de hectolitros) e só perde, em volume de produção, para a Anheuser-Busch (122 milhões), dona da Budweiser. ‘‘Com essa fusão, somamos massa crítica para ganhar o mercado externo sem perder o mercado interno’’, diz Marcel Telles. O espalhamento lá fora começa pelo Mercosul. O maior fabricante de cerveja da Argentina, do Grupo Bamberg, é do tamanho de um terço da brasileira Kaiser. Ou menos de um décimo da Brahma.
Nos planos da AmBev verde-amarela, a conquista do mercado latino-americano, seja por exportação de produtos, seja por exportação de fábricas, seja por aquisição de empresas nativas. A longo prazo, a globalização das marcas Brahma e Antarctica, que são nomes de apelo universal. Ainda este ano, a introdução de ações da AmBev na Bolsa de Valores de Nova York, onde já estão listadas as ações da Brahma. É o que prevê o banco americano Morgan Stanley, responsável pela avaliação econômica dessa mega-fusão de R$ 10,3 bilhões em vendas anuais.
Na avaliação, o Morgan Stanley constatou que a Brahma vale o dobro da Antarctica. Mas um acordo de acionistas, válido por dez anos (renovável automaticamente), garante peso igual dos controladores de ambas as empresas nas decisões estratégicas da AmBev.



Secos & Molhados
Nome global
Brahma é nome global. Antarctica é nome global, com pinguim e tudo. E AmBev? De onde saiu esse nome? Do registro da empresa nos Estados Unidos: American Beverage Company - AmBev.
Paradigma
O mercado brasileiro da cerveja segue o modelo americano da concentração da oferta em meia dúzia de empresas, se tanto. As marcas locais são absorvidas pelas marcas de alcance nacional. E, doravante, de alcance global.
Briga de balcão
E a competição? Ela se faz na ponta da distribuição, tal como nos combustíveis. Permanecem em separado as cadeias de distribuição da Brahma e da Antarctica. A Brahma já faz isso com a Skol - que deu de tirar mercado da Brahma.
Ainda frouxo
O trópico ajuda. A renda, não. O consumo anual de cerveja por habitante é um elástico grande e frouxo: 50 litros por brasileiro. Pouco mais da metade do consumo per capita da friorenta Europa.

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