‘‘Alcançar a perfeição é um objetivo impossível. Aproximar-se cada vez mais dela, não.’’
Telê Santana, professor de futebol
Vírus do retrocesso
Dizem que o vírus da indexação é indestrutível, quase do tamanho de um cachorro. Não late. Só morde. Dizem também que a fixação de metas de inflação, em tom oficial e solene, é aposta de alto risco com a reindexação voluntária e informal de preços e contratos. E a volta da indexação, esta, sim, seria a morte inglória do Plano Real, fuzilado por um IPCA mensal de dois dígitos...
Era o que se dizia antes do carnaval da perplexidade nacional, dólar então faiscando R$ 2,22. E com o Lehman Brothers projetando, para este ano, inflação de 85%. Ora, quem projeta para o Brasil inflação anual de 85% deve entender muito de Rússia ou de Indonésia e só. Simplesmente porque não mais pode haver inflação de 80% ao ano no Brasil. Ou ela é de 8% ou é de 800%, sem parada técnica nos 80%. Por quê? Porque a reindexação seria retomada na primeira taxa mensal de 8%. E isso catapultaria a inflação verde-amarela de susto, em 12 meses, para 800% ou mais.
O ‘‘overshooting’’ cambial já passou e a reindexação não decolou. Decolaria agora com o ‘‘inflation targeting’’? Para o ex- presidente do Banco Central, Gustavo Franco, o vírus da (re)indexação está realmente a bordo da fixação oficial de metas inflacionárias. Agentes econômicos ligeirinhos, segundo ele, cuidarão de fazer da meta de 8%, adotada para este ano, um piso e não um teto para suas projeções de preços (e custos) até dezembro. Um imaginário que sancionaria um IPCA de 8% como piso de basalto.
Ou será que não? Affonso Celso Pastore, que também já foi presidente do Banco Central, diz que empresas e pessoas já trabalham normalmente com metas inflacionárias, especialmente na negociação de contratos. Por falta de referência ou de bola decristal, costuma-se projetar inflação até maior que a esperada pelo governo ou pelo mercado. No caso, mercado financeiro, o único que se obriga a operar com preços (os juros) a futuro.
Pastore entende que indexação é reposição de inflação passada - correção plena da inflação cheia, sem redutor no indexador. Não existe indexação prévia de inflação futura. E mais: a meta de 8%, para este ano, está acima das expectativas do próprio mercado, lembra Pastore. E isso tranquiliza o próprio mercado. Porque a meta dita conservadora aponta para uma distensão da política monetária (crédito maior a juro menor). Ganham com isso o ajuste fiscal, o investimento produtivo, o consumo, a produção e o emprego. Afinal, inflação futura também tem algo a ver com o grau de pessimismo e/ou otimismo da sociedade aqui no presente.




Secos & Molhados

Metas fiscais
- O sucesso do sistema de metas inflacionárias depende da fixação e do alcance também de metas orçamentárias. A verdadeira âncora de qualquer programa de estabilização (em economias não indexadas) é o ajuste fiscal leonino.
Boa notícia
- O ajuste fiscal resvala da área técnica para a arena política. Diz um senador nordestino: ‘‘Olha, senhor jornalista. Nós, políticos, descobrimos agora uma velha lição do Santhiago Dantas: verba nós temos. O que não temos mais é dinheiro.’’
Metas de vida
- A ‘‘cenarização’’ da equipe econômica bem que poderia dar carona a metas de produção. Metas de expansão para o investimento, a produção e o emprego juscelinamente.
Por que não?
- Já imaginaram também metas de corrupção? Pelo cheiro da brilhantina, ficaria de bom tamanho estabelecer para a roubalheira nacional, este ano, o teto de 1,7% do PIB (metade da CPMF). Que é o nível atual da corrupção no Japão. Que tal?

mockup