Joelmir Beting
É melhor cair das nuvens do que cair dos planos.
Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), escritor e aviador francês
Fôlego de sete gatos
Se o gato tem sete fôlegos, o Plano Real têm fôlego de sete gatos. O programa de estabilização, que hoje entra no seu sexto ano de vida, paixão e sorte - sem contar os quatro meses de gestação atribulada no ventre da URV -, foi dado como morto pelos torcedores do piorômetro nacional em pelo menos sete situações.
A primeira morte anunciada do Plano Real deu-se nas dores do parto da nova moeda em junho de 1994. Espalhou-se que o plano meramente eleitoreiro e transitório seria fuzilado em julho e agosto por uma hiperinflação mensal de três dígitos. Risco que forçaria o governo Itamar a decretar o congelamento de preços, salários e contratos em reais. Resultado: remarcação preventiva de preços já urvizados em maio e junho. No último mês do cruzeiro (com IPC mensal de 39%), deu-se uma inflação de 17% em URV! Um horror!
A segunda morte do Plano Real foi trombeteada em setembro, na reta final das urnas, pelo escândalo da parabólica do ministro Ricúpero, combativo catequista do programa de estabilização. Os arautos do colapso do Real voltaram a espalhar um terceiro velório do programa na eclosão da primeira crise global, a da moratória mexicana, no primeiro trimestre de 1995. Com adoção canhestra da banda cambial em março, queda do presidente do Banco Central Pérsio Arida. Um jornal paulista deu o furo em manchete: FHC salva-se com Plano Real 2.
A quarta morte anunciada do Real ocorreu na crise global made in Asia, em outubro de 1997. Com a estabilização interrompida por um choque monetário defensivo, seguido de um choque fiscal corretivo. Dez em cada dez cenaristas projetaram para 1998 uma recessão de 5%, com (re)inflação de 35%. Sinal verde para a reindexação informal de preços, último suspiro do Real.
A quinta missa de sétimo dia do plano teimoso foi encomendada pela barganha política rasteira da emenda da reeleição, seguida da campanha eleitoral de 1998. Caldo de cultura ideal para a desfiguração das reformas legislativas exigidas pelo ajuste fiscal, última tábua de salvação do Real. Eis que, em agosto/setembro, outra vez na reta final das urnas, explode a moratória da Rússia. Novo choque monetário, casado com novo choque fiscal. Brasil então eleito, finalmente, a próxima bola da vez da crise global - na sexta morte anunciada do Plano Real.
A sétima morte jurada forte do Real partiu da explosão da âncora (?) cambial em 15 de janeiro. Brasil 99 esmagado por recessão de 7% (Deutsche Bank), inflação anual de 85% (Morgan Stanley) e moratória da dívida externa no mais tardar em junho (Business Week). E, pela sétima vez, entre mortos e feridos...
Secos & Molhados
Estabilidade
- Acabar para sempre com a inflação indexada é a façanha do Plano Real. A estabilidade monetária é o fator condicionante para um projeto de desenvolvimento nacional sustentado e duradouro. O resto é fantasia.
Cinco tempos
- Ainda estamos na virada do primeiro para o segundo tempo de um jogo duro de cinco tempos: 1) estabilização dos preços; 2) crescimento econômico; 3) reestruturação produtiva; 4) saneamento do setor público; 5) desenvolvimento social.
Desvios de rota
- Além das crises importadas e dos choques internos, a estabilização foi dificultada por uma overdose tripla: defasagem cambial, garrote monetário e desajuste fiscal. Além de erros de pilotagem no processo político de sustentação do plano.
Um balanço
- Qual seria a avaliação do Plano Real na percepção coletiva da classe trabalhadora? A resposta está num estudo do Dieese, concluído na semana passada. Amanhã, nesta coluna.





