‘‘Vocês chamam isso de protecionismo? O protecionismo europeu é uma lenda...’’
Jacques Chirac, presidente francês

Os custos da lenda
Antes de dizer, domingo, no Rio, que ‘‘o protecionismo europeu é uma lenda’’, o presidente francês Jacques Chirac deveria ter conversado com seu ministro de Relações Exteriores, Hubert Védrine. Este não só admitiu a existência de práticas protecionistas medievais na Fortaleza Europa, como justificou a manutenção delas: ‘‘Todo mundo é protecionista. Por que deixaríamos de sê-lo?’’
A lendária proteção do mercado europeu - de dentro para fora e de fora para dentro - custa para os governos dos 15 países que integram a União Européia cerca de 66% (dois terços) do valor total dos subsídios existentes hoje em todo o mundo. No melindroso setor agrícola, as práticas protecionistas, ostensivas e enviesadas, petrificadas na chamada Política Agrícola Comum (PAC), consomem 52% do orçamento anual da União Européia. E os europeus que vivem dos rendimentos da terra não passam de 2% da população do bloco. Os subsídios agrícolas, diretos e indiretos, somam US$ 112 bilhões, segundo dossiê da revista inglesa The Economist.
A lenda de Chirac é o maior obstáculo para o crescimento orquestrado do comércio mundial de produtos e de serviços. Liderado exatamente pela França, o protecionismo europeu sanciona politicamente a ‘‘fechadura’’ de mercados asiáticos do peso de um Japão ou de uma China. E justifica a recaída do protecionismo no megamercado dos Estados Unidos, o mais entreaberto do mundo.
E mais: resfria e protela, aqui na Cimeira do Rio, a usinagem de uma futura integração da União Européia com a América Latina (a partir do Mercosul) e desta com a América do Norte (servida pelo Nafta). A sombra tentacular dos subsídios agrícolas igualmente desencoraja propostas tempestivas para a remontagem do acordo global tripulado pela Organização Mundial de Comércio (OMC). Revisão em três anos, a da chamada Rodada do Milênio. Que começa em novembro, juntando 178 países em Seattle, EUA.
Há quem veja na resistência européia, cevada pela teimosia francesa, uma futura jogada geopolítica de cartas marcadas; a incorporação de países do Leste Europeu, com seus mercados ainda semifechados. E com um quarto da população hoje refém de uma economia rural tão protegida quanto ineficiente.
Pelo sim, pelo não, a diplomacia brasileira faz a lição de casa em três cadernos: 1) organização e hospedagem da Cimeira do Rio; 2) consolidação de posições em comum com a parceria do Mercosul; 3) constituição do Grupo Interministerial de Trabalho sobre Comércio Internacional de Mercadorias e Serviços (Gici), com a missão de arredondar as propostas do Brasil para a Rodada do Milênio.




Secos & Molhados
Pedágio caro
- A lenda de Chirac custa para o ‘‘agribusiness’’ brasileiro uma perda de mercado (europeu) da ordem de US$ 3 bilhões por ano. De preferência, nos produtos agrícolas competitivos, de maior valor agregado.
Estrago maior
- A União Européia despeja seus encalhes subsidiados em meio mundo. Isso derruba cotações dos nossos produtos em terceiros mercados. Perdas avaliadas em mais US$ 4 bilhões em 1998.
Justa causa?
- O professor Marcos Sawaya Jank, da USP, lembra que os alimentos encalhados fazem o ‘‘tráfico de influência’’ da diplomacia européia nos países mais pobres da África e da Ásia. Remessas com preços aviltados - em ‘‘caráter humanitário’’.
Eis a lenda
- Esse programa europeu de ajuda alimentar é a verdadeira lenda, diz Marcos Sawaya Jank. Além de inviabilizar a economia rural nativa, a generosidade européia alimenta ditaduras corruptas nos países por ela supostamente assistidos.

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