‘‘O mercado global do futuro não será aberto nem fechado. Será um mercado pactuado por países sincronizados em blocos comerciais.’’
Hans Eichel, ministro alemão das Finanças.

Um modelo exportador
Na presidência transitória da União Européia, a Alemanha passa a cultivar maiores interesses comerciais com o Mercosul. O bloco sulamericano, liderado pelo Brasil, responde por apenas 1,3% das exportações alemãs. Que embarca para fora das fronteiras nacionais perto de 38% do produto industrial. É o maior grau de extroversão comercial entre os 30 países mais industrializados do mundo.
O comércio exterior, nas duas mãos, tem sido a locomotiva da economia alemã, terceira potência. Este ano, as exportações crescem 5%, salvando o país de uma ‘‘recessão nipônica’’, nas palavras de Franz Schoser, presidente da Confederação Alemã das Câmaras de Indústria e Comércio (sigla DIHT em alemão). As perdas de mercado na Ásia não abalaram os alemães. Franz Schoser lembra que, na soma de Japão, China, Índia e meia dúzia de ‘‘tigres’’, a reunião absorve tão somente 4,3% dos embarques totais da Alemanha. Tanto quanto o Leste Europeu. Ou apenas um terço do Nafta.
Os grandes clientes da indústria germânica, da ordem de dois terços das exportações totais, são os 14 parceiros da União Européia. Logo, diz Schoser, o que é bom para a Europa é bom para a Alemanha. A entidade que ele preside pontifica no modelo exportador, realmente modelar, do país. Ela congrega 3,4 milhões de empresas, agrupadas em 82 câmaras de comércio e indústria. Completa agora 50 anos e opera 110 escritórios técnicos em 76 países. Não existe nada parecido no mundo.
Sobre a Cimeira América Latina-União Européia, no Rio, Franz Schoser diz que, para a indústria alemã, o Mercosul já é o dobro do planeta China. Sem contar os investimentos diretos. Funciona hoje no Brasil o maior parque industrial alemão fora da Alemanha.
Sobre a agenda da Cimeira, Franz Schoser disse recentemente no Rio que a futura integração comercial entre blocos econômicos é o melhor atalho para a inclusão das pequenas e médias empresas no banquete do comércio exterior. Guinchadas pela integração européia de quatro décadas a fio, pequenas e médias empresas respondem por 36% das exportações totais da Alemanha. No Brasil, a contribuição desse segmento, por enquanto, não vai além de 6%.
O modelo alemão de engajamento das pequenas e médias empresas no comércio exterior repousa no tripé: 1) cooperativas ou consórcios de exportação (e importação); 2) ‘‘pools’’ empresariais monitorados pelas câmaras de comércio e indústria; 3) contratos de parceria com as grandes empresas na faixa da subcontratação industrial. Além, claro, da ‘‘classe mundial para um mercado global’’.




Secos & Molhados
Linha dura
- Acabou a lua-de-mel do governo social - democrata de Gerhard Schroeder com a ‘‘economia social de mercado’’. O governo alemão decretou, quarta-feira, um ajuste fiscal leonino, de perfil neoliberal. Corte de impostos casados com redução de gastos.
Austeridade
- Para cada unidade de privação de receita, duas unidades de extinção de despesa. O déficit alemão (3% do PIB em 1998) será de 2% em 1999, 1% em 2000 e 0,5% em 2001.
Um vespeiro
- No corte dos gastos, fim de certos subsídios para agricultura e de alguns incentivos para a indústria. O pior: redução de benefícios para servidores, aposentados, pensionistas e desempregados. Uma facada de US$ 15,8 bilhões.
Interrogação
- Será que o pacotaço alemão vai reaquecer o PIB, hoje de 1,5% ao ano? A indústria avisa que falta botar o dedo na ferida maior: a dos custos trabalhistas. Eles estão 17% acima da média européia ou 28% acima da média americana.

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