Joelmir Beting
Todo dia eu acordo com um não. E o dia todo eu corro atrás do sim.
Jorge Eduardo Junqueira de Oliveira, consultor de investimentos
De bom tamanho
Cada vez menos cético e menos amargo, o mercado financeiro acredita que a nova Selic de 22%, inaugurada ontem, tem combustível para a travessia de duas semanas, se tanto. Ela pode ser rebaixada para 19,75% antes da próxima reunião do Copom. Ou logo após a decisão do Fed sobre a taxa básica made in USA, na semana que vem. Houve quem apostasse em Selic de 20% para esta virada do semestre.
Algo inimaginável na semana do carnaval, na crista do choque cambial, com a taxa básica espetada no pico de 45%. O Copom, na garupa do viés de baixa, preferiu um corte cauteloso de 23% para 22%. Primeiro: é conveniente aguardar uma definição da taxa básica americana. Segundo: é preciso avaliar o impacto inflacionário do reajuste dos combustíveis.
Terceiro: é aconselhável, doravante, atrelar o viés de baixa dos juros ao sistema de metas inflacionárias (inflation targeting) - que estréia na próxima semana.
O mercado volta-se para o Fed, banco central americano. O viés de alta, assumido há 17 dias, será testado terça-feira. As apostas vão de um aumento de 0,25%, a 0,75% para a taxa básica situada em 4,75%. E há quem acredite em manutenção da taxa atual. O viés de alta teria um caráter de intimidação. Ou de dissuasão.
Os indicadores apontam para a manutenção da taxa básica. A inflação de maio evaporou-se no índice zero. O consumo completa três trimestres de desaceleração: 6,1%, 4,1% e 3,7%. O emprego quase pleno parou de crescer em maio. E a irrational exuberance da Wall Street, velha insônia de Alan Greenspan, registra queda acumulada do Dow Jones de 418 pontos nas últimas seis semanas. Um mercado ainda com instinto de conservação, diria Alice Rivlin, vice de Greenspan.
Para o setor produtivo, resta a doce vigília de uma queda equivalente dos juros também na ponta do crédito bancário. Acabou o mata-burros cambial e entra em campo o ajuste monetário na direção de um crédito maior, mais longo e menos caro. Há espaço técnico e condição política para a redução orquestrada dos juros para investimento, produção, giro e consumo - mesmo com uma interrupção do viés de baixa da Selic.
Secos & Molhados
Inarredáveis
- Na ponta do consumo, as taxas extraídas dos mutuários desinformados continuam ao redor de 11% ao mês no cheque especial e no cartão de crédito. No crediário de loja, os juros teimam em trafegar pela média de 9%. Desde 1997.
Quem sabe, pode
- Montadoras de automóveis praticam as taxas mais baixas do varejo. Elas caíram da média de 6,5% ao mês, em março, para 2,6% agora em junho. O Banco General Motors opera, em certos modelos, com juros de apenas 0,99% ao mês.
Quem ganha
- A queda dos juros na base interbancária alivia a barra de chumbo da dívida pública que financia o déficit público. Isso fertiliza o processo de ajuste fiscal.
Tarifaço
- O reajuste por atacado de tarifas e preços ainda (mal)administrados pelo governo tromba com a reversão das expectativas da economia e da sociedade. Repasse do custo cambial? Uai! Os preços não administrados absorveram esse choque, sem repassá-lo.





