‘‘Todo mundo é protecionista. Por que deixaríamos de sê-lo?’’
Hubert Védrine, ministro francês das Relações Exteriores.

Cimeira ou Ciumeira?
O governo francês recua e avisa: não mais vetará a iniciativa da União Européia de construir uma ponte de livre comércio com a América Latina - no rodapé dos Estados Unidos. Ou antes da instalação , em 2005, do mercado comum das três Américas, a Alca, por iniciativa do salão oval da Casa Branca.
A suspensão do veto francês enche a bola política da Cimeira América Latina-União Européia, semana que vem, no Rio de Janeiro. Cimeira? Não confundir com ciumeira, o que não seria um disparate na diplomacia universal. A palavra é utilizada em Portugal, membro da União Européia, para as reuniões de chefes de Estado. Questão de gosto. O Brasil prefere a cúpula. A Itália vai de vértice. Americanos, ingleses e alemães contentam-se com summit.
O sinal verde da França surpreendeu a própria parceria européia. Paris aceita algo mais que a discussão de um futuro mercado comum transatlântico. Admite incluir na agenda também o mercado agrícola, terreno minado para políticos europeus de olho rútilo nas próximas eleições. A oligarquia rural européia, especialmente a francesa, tem a chave das urnas nas mãos.
Na Cúpula do Rio, o Brasil desfraldará a palavra de ordem, já endossada alegremente pela Argentina, parceira do Mercosul: ‘‘Ou tudo será negociado ou nada será negociado.’’ A União Européia acaba de descolar do Parlamento Europeu (poder legislativo do megabloco de 15 países) a aprovação do chamado ‘‘mandato negociador’’ para a costura do mercado comum com a América Latina. Essa carta branca tem versão americana no ‘‘fast track’’. Que o Congresso não se dispõe a conceder ao presidente Bill Clinton.
A cimeira do Rio terá 34 chefes do governo da América Latina e do Caribe (incluído o cubano Fidel Castro) e 14 da União Européia (excluído o inglês Tony Blair). Cuja ausência ainda não foi convincentemente explicada pela chancelaria inglesa. Os ingleses participam da União Européia com nariz torcido. Ainda não toparam subscrever o euro, moeda (quase) única do bloco.
Na usinagem dos tratados multilaterais de comércio, o cronograma desperta debates crispados. A União Européia deve sustentar, no Rio, que a agenda da negociação com a América Latina vai ter de esperar pela realização da Rodada do Milênio, que será lançada, em novembro, em Seattle, EUA, no Summit da Organização Mundial de Comércio (OMC). Rodada para remontar, melhorar e expandir o tratado de abertura comercial firmado pelos 178 países que integram a OMC.




Secos & Molhados
Cronograma
- A França ranzinza propõe 2005 como tiro de partida do mercado comum com o Mercosul (ampliado). Na mesma data deve entrar em campo a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), tripulada pelos Estados Unidos.
Tudo ou nada
- Em troca do acordo agrícola, a União Européia exige um acordo para o setor de serviços. Assunto ainda não resolvido na grande arena da OMC.
Ciumeira
- Na fila do gargarejo da Cimeira do Rio, os Estados Unidos não escondem a ciumeira em relação ao Brasil. No mapa-múndi das expotações brasileiras, a União Européia entra com 29%. Os Estados Unidos, 18%. Tanto quanto o Mercosul+Chile.
Armistício
- A União Européia costura uma agenda ‘‘positiva’’ para uma reaproximação comercial com os Estados Unidos. Bill Clinton tratou disso, pessoalmente, em Bonn. Os dois gigantes estão brigando por bananas, churrascos e transgênicos.

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