Joelmir Beting
Recurso natural só se transforma em riqueza, produto, emprego, salário e tributo quando mobilizado, processado e desfrutado.
Eugênio Gudin (1886-1986), engenheiro e economista
Um mercado indócil
Desde janeiro, o preço médio do petróleo tipo brent, cotado na bolsa londrina, acumula uma alta de 57%. Um míni oil-shock de padrão opepiano. Agravado, aqui no Brasil, por uma correção cambial da ordem de 42%. Já se comenta pelas quebradas dos negócios do ramo que o consumidor brasileiro já deveria estar desembolsando pelo menos um terço a mais do que hoje paga pelos derivados de petróleo no posto da esquina.
Como o Brasil ainda importa exatamente um terço de petróleo que consome, o repasse com casca e tudo da alta lá fora e do câmbio aqui dentro para os preços finais da ilustre mercadoria seria da ordem de 30% - ainda em junho. Independentemente deste primeiro leilão de novas áreas de licitação para pesquisa e lavra de petróleo, com a reserva de mercado da Petrobrás. Com direito ao desgaste ligeirinho: Tá vendo? É só privatizar que o preço dispara! Estudo da Agência Internacional de Energia (AIE) sobre a revalorização dos preços do petróleo aponta como causa maior a infalível combinação de demanda recuperada com oferta manipulada.
Seguinte: 1) rebrota o consumo na Ásia, em estado de convalescença econômica e financeira; 2) prossegue com a pilha toda o consumo nos Estados Unidos, sociedade mais energívora do mundo; 3) energias alternativas foram desencorajadas pela desvalorização anterior do petróleo; 4) países produtores reduziram propositadamente a oferta desde meados de 1998 (o cartel da Opep enxugou a produção em 4,3 milhões de barris por dia).
O recuo da produção global também é movido por uma lógica natural dos negócios do ramo. Quando os preços despencam, a ordem a fechar o poço próprio é queimar o óleo alheio - que é um recurso finito. De preferência, petróleo árabe...Pelo sim, pelo não, a revalorização do petróleo, este ano, acabou por vestir a camisa da flexibilização do monopólio estatal aqui no Brasil.
Restabeleceu a apetência das grandes operadoras pela prospecção da terceira maior bacia sedimentar do mundo sob uma só bandeira. E perfurada, até aqui, em apenas 7% de sua extensão total de 6,4 milhões de kmÔ na terra e no mar.
Com o ingresso de capitais privados no setor, o governo troca o monopólio do risco (de procurar e não encontrar) pela condição de sócio maior e sem risco dos negócios privados. A receita do ato de licitação é mínima porque a fatura maior está lá na frente. Sem investir um centavo, União, Estados e municípios devem participar de um rateio de aproximadamente 50% do valor da produção do petróleo que vier a ser descoberto e explorado.
Secos & Molhados
Mais forte
- Com a perda da reserva de mercado, a Petrobrás fica paradoxalmente mais ágil e mais forte. Fisgando novas áreas de desenvolvimento, em leilão, e ampliando o leque de parcerias com o setor privado, a estatal agrega valor patrimonial (e atrativo de mercado) ao estoque de ações em seu poder. Desde outubro, já fechou 13 contratos de parceria com 18 grupos nacionais e estrangeiros.
Hora certa
- Titular do monopólio estatal, a União detém quase 83% do capital da Petrobrás. Aguarda a hora certa (da empresa e do mercado) para vender em bolsa 31% desse ativo - sem perda do controle da estatal. Uma tranche que valeria, hoje, US$ 5,2 bilhões.
Para todos
- Fabricantes nacionais de equipamentos para o setor petrolífero vão brigar (agora com isonomia tributária) por encomendas anuais que devem saltar de menos US$ 3 billhões para mais de US$ 7 bilhões. Eles acabam de formar o lobby Organização Nacional da Indústria do Petróleo.





