‘‘Mesmo quando todos os diplomatas estão de pleno acordo, podem muito bem estar enganados.’’
Bertrand Russel (1872-1970), filósofo inglês

Nhenhenhém global
A agenda da integração econômica continental passa pela negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), com sobras para um prévio acordo comercial do Mercosul, isoladamente, com a União Européia. Um trabalho diplomático para 12 Hércules, retomado, em Assunção, pelos presidentes do Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile.
Posição em bloco dos governos do Mercosul: nenhuma pressa na carpintaria da Alca e todo o empenho na integração com a União Européia. Esta seria acertada no final do ano que vem. Aquela, só em 2005. Ocorre que os Estados Unidos insistem em antecipar a instalação do megabloco interamericano para o ano 2003. E a Europa, por pressão da França, ensaia em protelar o acordo com o Mercosul também para o ano 2003.
Brasil e Argentina entendem que juntar-se com os europeus o mais rapidamente possível fortaleceria a posição da América do Sul na negociação da Alca com os Estados Unidos. Ciúme também funciona na paquera entre nações.
O ano 2003 é a estrela de Davi no calendário da globalização. Será o ano da revisão das regras do mercado global pela Organização Mundial de Comércio. Agenda que poderá ser definida pelos chefes de Estado dos 178 países da OMC na chamada Cúpula do Milênio, marcada para novembro próximo na cidade americana de Seattle, terra natal da Boeing e da Microsoft.
Os europeus, liderados pelos franceses, torcem o nariz para a Cúpula do Milênio e para a rodada global do ano 2003. Por uma simples e ofídica razão: estão casados com os subsídios agrícolas e com as práticas protecionistas de comércio e não pretendem abrir mão disso em plenário da OMC. Tanto assim, que a França acaba de vetar qualquer iniciativa européia de ‘‘livre comércio’’ na conferência de 48 chefes de Estado da União Européia e da América Latina, dias 28 e 29, no Rio de Janeiro.
Estão na berlinda subsídios agrícolas de US$ 142 bilhões por ano nos 15 países da União Européia. Ou de US$ 366 bilhões - um bilhão por dia - nos 29 países mais ricos do mundo, integrantes da OCDE. Nos Estados Unidos, onde os produtores, sob certas condições de mercado, são pagos para nada plantar, os subsídios somaram US$ 97 bilhões no ano passado.
O desmanche pactuado dos subsídios agrícolas discriminatórios e das barreiras comerciais retaliatórias é sonho de uma noite de inverno do liberalismo globalizante, escreve Alberto Tamer, de Paris.


Secos & Molhados
Vale a pena
- Estudo da Comissão Européia revela que a integração com o Mercosul não oferece vantagens econômicas diretas para os europeus. Mas seria de grande efeito estratégico (com ganhos econômicos indiretos) nas espinhosas barganhas comerciais com os Estados Unidos.
Pacto fiscal
- A cúpula de Assunção, encerrada ontem, aprovou a idéia de um ‘‘Pequeno Maastricht’’: um pacto fiscal do Mercosul, com a convergência das políticas macroeconômicas. No figurino do pacto europeu que deu à luz a moeda única.
Meia-volta, volver
- A União Européia sofreu sério desgaste político para uso externo na eleição do Parlamento Europeu, domingo. A bancada de centro-direita ficou maior que a bancada de centro-esquerda. São de centro-esquerda os novos governos da Alemanha, Itália, França e Inglaterra.
Desencanto
- Analistas políticos sustentam que o eleitorado europeu manifestou seu desencanto precoce com as promessas ainda não cumpridas de Schroeder, D’Alema, Jospin e Blair. Com sobras para a desvalorização de 11% do euro diante do dólar.

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