Joelmir Beting
O petróleo mais caro do mundo não é o nacional nem o importado. É o recurso ainda eternamente deitado em berço esplêndido.
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), engenheiro e economista
O grande salto
Com a entrada de capitais privados na pesquisa e lavra de petróleo, incluídos os contratos de parceria com a estatal Petrobrás, o Brasil deve duplicar os investimentos no setor em três anos. Um salto de US$ 3 bilhões (limite físico da Petrobrás) para US$ 6 bilhões, no mínimo. A capacidade de perfuração, ainda abaixo de 900 poços por ano, será esticada para 2 mil poços ou mais.
Eis o efeito líquido imediato do leilão das primeiras 27 áreas de prospecção que ocorre hoje e amanhã na sede da Agência Nacional de Petróleo (ANP), no Rio de Janeiro. As áreas em licitação, mapeadas em nove bacias sedimentares propícias à ocorrência de óleo e/ou gás natural, representam tão-somente 2% do total das bacias brasileiras na terra e no mar (off-shore). Um patrimônio geológico com 6,4 milhões de kmÔ. Terceiro maior do mundo, depois da Rússia (com a Sibéria) e dos Estados Unidos (com o Alasca).
Em quase meio século de heráldica existência, a Petrobrás prospectou apenas 7% do potencial verde-amarelo. Doravante, atiçada pela concorrência privada, a estatal deve passar sebo nas canelas. Ela dispõe de tecnologia de ponta no filão das águas profundas. Falta-lhe jogo de cintura para levantar capitais de terceiros. E falta-lhe, igualmente, autonomia de gestão para remunerar seu corpo técnico e administrativo com salários de mercado.
Mercado superaquecido a partir deste ingresso das maiores operadoras do mundo. Empresa estatal não tem flexibilidade nem velocidade para disputar profissionais de terceiros nem para afastar o aliciamento dos quadros próprios - os únicos brasileiros até aqui gabaritados no setor. O assunto é melindroso e deve ser equacionado o mais rapidamente possível, disse-me domingo à noite, na Globo News, o presidente da ANP, David Zylbersztajn.
Com o lembrete: a) a Petrobrás, em sendo competente, pode continuar com crachá de estatal; b) o monopólio é da União e não acaba com a licitação de áreas de pesquisa e lavra; c) o que chega ao fim, a partir de hoje, é a reserva de mercado da Petrobrás.
Estará finalmente ligado o sinal verde para a auto-suficiência do Brasil em petróleo? David Zylbersztajn pondera: 1) o conceito de auto-suficiência em petróleo é elástico e pode contentar-se, por exemplo, com 85% do suprimento interno; 2) o petróleo é recurso finito e, dependendo de certas variáveis do mercado, não raro vale a pena queimar o recurso dos outros antes de promover a exaustão do nosso. Os americanos fazem esse jogo desde que inventaram a indústria do óleo de pedra no último quartel do século passado.
Secos & Molhados
Para todos
- A arrancada dos negócios do petróleo no Brasil, bola da vez do investimento internacional do setor, amplia o mercado interno para os fornecedores nacionais de produtos e serviços. A nova demanda das operadoras privadas (mais a Petrobrás) deve multiplicar negócios e empregos.
Isonomia
- O governo acaba de isentar a indústria nacional de máquinas para petróleo do imposto de importação de componentes. Isenção também do IPI, ICMS, PIS e Cofins na fabricação interna. Competidores estrangeiros não pagam nada disso.
Custo menor
- A Petrobrás também ganha com esse refresco tributário. Ela passa a desfrutar de equipamentos nacionais desonerados da carga fiscal. Isso reduz os custos dessa fração do capital fixo dela para os padrões internacionais.
Capital nobre
- O governo lança nos próximos dias um vasto programa de qualificação de recursos humanos para a indústria do petróleo. De sobremesa, centenas de bolsas de estudo no país e no Exterior.





