Joelmir Beting
A oferta de energia elétrica no Brasil tenta alcançar a demanda a uma velocidade de 60 minutos por hora.
José Leroy Zimmerman, consultor
As contas da luz
A estabilidade do real sobreviveu ao choque cambial de janeiro e fevereiro, com direito à deflação em maio. E leva jeito de esnobar também o choque tarifário de junho e julho. O reajuste de até 21% nas contas da eletricidade deve provocar alta de 0,74% no índice mensal do custo de vida na Grande São Paulo, segundo a Fipe. Não deixa de ser um coice de mula. O mesmo índice acumulou nos últimos três meses (março, abril e maio) nada além de 0,66%.
O impacto do ajuste da energia elétrica foi amaciado pelo parcelamento dele em junho, julho e agosto. Seria a última pedra no sapato da reestabilização dos preços ao longo deste ano. Há quem ainda aposte em inflação de 7% em 1999. Em fevereiro, houve quem projetasse, em relatórios solenes, até 85% de janeiro a dezembro.
Em matéria de tarifaço de energia, o Plano Real até que chora hoje de barriga cheia. Nestes seus cinco anos de vida, paixão e sorte (uma sorte palmeirense), o programa de estabilização fez da conta da luz em domicílio uma miniâncora sob medida. De julho de 1994 a maio de 1999, a inflação medida pela Fipe na Grande São Paulo contentou-se com um índice acumulado de 70%. A conta da luz, no mesmo período, não passou de 45%.
A defasagem tarifária do setor elétrico em todo o País só fez por aumentar a aflição dos aflitos; o sufoco financeiro ainda maior de concessionárias estatais que se endividaram a perder de vista desde o grande salto do sistema na década de 70. Um setor que paga até hoje por todos os pecados de um populismo econômico planaltino de cano duplo: realizar grandes obras sem fazer e sem pagar as contas; congelar tarifas para mascarar desacertos da política macroeconômica.
O resultado líquido é qua-drúpede: 1) 29 novas usinas com obras paradas desde a década passada; 2) privatização de geradoras e distribuidoras descapitalizadas e desvalorizadas; 3) economia e sociedade no limiar do blecaute ou de exaustão estrutural do sistema; 4) desafio remanescente de ampliar a oferta de energia em 40% até o ano 2004. Uma adição de 26 mil megawatts. Ou duas Itaipus em apenas cinco anos. Haja gás. Ou melhor, haja termoelétrica a gás, a óleo, a carvão, a bagaço de cana.
No Plano Real, o abafa da energia foi tanto mais dramático quando cotejado com a generosa reposição tarifária de outros negócios estatais. Ainda em São Paulo, segundo a Fipe, água e esgoto acumularam reajuste de 90%, o dobro da correção da energia. O gás de rua emplacou 143%. E o telefone, nada menos de 314%.
Secos & Molhados
Sob cabresto
- A privatização do setor elétrico (geração, transmissão e distribuição) embarca numa fase de transição que vai até dezembro de 2002. Só no ano seguinte é que os novos donos desfrutarão de liberdade tarifária.
Emoção forte
- O Brasil varonil explora menos de um terço do seu potencial hidrelétrico. Mas só escapará de blecaute intermitente se apelar para usinas termoelétricas com geração total do tamanho de uma Itaipu. Na média, a energia termoelétrica é 55% mais cara.
Efeito retardado
- O reajuste da energia repassa os custos do ajuste cambial de janeiro a maio. A energia de Itaipu, que cobre 30% do consumo no Sudeste, é paga em dólar. O gás boliviano também.
Barbas de molho
- Na madrugada deste domingo, das 2 às 5 horas, todo o sistema elétrico nacional estará simulando o próximo réveillon, o do bug do milênio. Será o primeiro e único teste em bloco do sistema. Não vou sair da cama.





