Joelmir Beting
A angústia do nosso tempo é muito simples: o futuro já não é mais o que costumava ser.
Paul Valéry (1871-1956), poeta francês
Ainda o viés de baixa
De 5 de março a 9 de junho, a taxa básica de juros, a Selic, despencou de 45% para 22% em oito passadas periódicas do chamado viés de baixa. Executivos financeiros se perguntavam, ontem, até onde pode ir a redução da Selic em 1999. A maioria dos analistas e dos cenaristas aposta em taxa de 15% na véspera do Natal. Para uma inflação gregoriana projetada para 7%, isso resultaria em taxa real de 8% ao ano. Quase de padrão global.
O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, já admitiu, publicamente, taxa real de 10% ao ano na virada de 2000. O diretor de Política Monetária do BC, Luiz Fernando Figueiredo, prefere um tom evasivo e reticente: o viés de baixa vai continuar aceso, independentemente de um ajuste fino nos juros americanos do Fed. O que importa é que a inflação brasileira, no horizonte deste ano, também desliza no seus viés de baixa. E outras variáveis internas e externas que condicionam a política monetária estão igualmente autorizando a redução ainda maior da Selic.
Uma redução para 20,50%, por exemplo, no próximo dia 23, reunião do Copom. E por que não 19,75%? Seria uma homenagem ao 5º aniversário da bíblica consubstanciação da URV em real. O que não falta é gordura para queimar nas taxas de juros de base e de ponta, como admite o próprio Luiz Fernando Figueiredo. Na ponta dos empréstimos bancários, as adiposidades maiores estão nos porcentuais criogênicos dos recolhimentos compulsórios e nas alíquotas extorsivas da chamada cunha fiscal. Assunto que o diretor do BC diz que pretende tocar no médio prazo. Ano que vem?
Única certeza, por enquanto: 1) o ajuste cambial de mercado já encontrou sua banda de equilíbrio, entre R$ 1,65 e R$ 1,75 por dólar; 2) o ajuste cambial abre condição técnica e espaço político para o ajuste monetário, que já começou, na direção de um crédito bancário maior, mais longo e menos caro; 3) o ajuste monetário cauteloso e progressivo alivia o sufoco financeiro da dívida pública que financia o déficit público, pavimentando o pedaço de mau caminho do ajuste fiscal - a âncora definitiva do Plano Real.
Eis o tripé seguro para o relançamento da economia brasileira. Sem pagar pedágio ao falso dilema do tipo estabilização versus crescimento, agitado desde abril pelos monetaristas com os pés no freio e pelos desenvolvimentistas com os pés no acelerador. Do meu canto, penso que a estabilidade monetária é o fator condicionante. O crescimento econômico é o fator condicionado. Claro, se crescimento realmente duradouro e sustentado.
Secos & Molhados
Refazendo
- Pela terceira vez este ano o FMI refaz previsões sobre a economia mundial de janeiro a dezembro. A expansão do PIB global foi reprojetada para 2,6%, contra 2,5% em março. A recessão brasileira foi rebaixada de 4% para 1%.
Muito forte
- Banco Central dos bancos centrais, o BIS avisa aos navegantes que o dólar está sobrevalorizado em relação ao euro (26%) e em relação ao iene (21%). O strong dollar ajuda a explicar o déficit comercial recorde dos Estados Unidos.
Tem futuro
- Estudo do BIS aponta o euro como principal moeda de reserva dos governos e das empresas de todo o mundo por volta de 2005. A menos que ocorram até lá duas coisas: a) expansão sustentada da economia americana; b) marcapasso continuado da União Européia e do Japão.
Respirando
- A queda do euro serviu até agora para retirar a Alemanha do atoleiro da recessão. A indústria que mais exporta no mundo ampliou as vendas para mercados movidos a dólar.





