‘‘Não há nada mais fácil do que dar conselhos. Nem nada mais difícil do que saber dá-los.’’
Benjamin Franklin (1706-1790), estadista americano


Pequeno Maastricht
Ainda enovelada por divergências comerciais, a carpintaria diplomática do Mercosul acaba de comprometer-se com convergências fiscais e cambiais. Ou seja: fixação de metas (e meios) comuns dos países membros para finanças públicas, índices de inflação, taxas de juros e níveis de produção e emprego. Essa integração macroeconômica seria o motor de ignição para a criação da moeda única do bloco.
Eis a decisão política assumida, em Buenos Aires, pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem. Ainda sem procuração dos presidentes do Paraguai e do Uruguai, que só ficaram sabendo dessa idéia pela televisão. Por enquanto, tudo não passa de um balão de ensaio, em nome de 165 milhões de brasileiros e 36 milhões de argentinos.
O presidente brasileiro compara o projeto da comunhão biológica do Mercosul com a integração já quase consumada da União Européia. Ele chegou a falar em ‘‘Pequeno Maastricht’’. Espécie de clonagem do pacto fiscal europeu que resultou na criação da moeda única (o euro), ainda de caráter escritural. O euro foi concebido por um tratado de convergência fiscal, monetária e cambial assinado na pequena cidade holandesa de Maastricht, em 1992. Pelo tratado, todos os países teriam de reduzir o déficit público para o teto de 3% do PIB até 31 de dezembro de 1998, véspera da estréia da moeda única. E com a taxa básica de juros configurada para 3% ao ano.
Sonho de uma noite de outono, esse nosso ‘‘Pequeno Maastricht’’. O megabloco europeu precisou de 40 anos de sinergia progressiva para cunhar o euro. Ainda assim, com dois parceiros de peso, a Inglaterra e a Suécia, deixando a adesão para um futuro ainda sem data. Conseguirá um Mercosul ampliado de quatro para seis ou dez parceiros alcançar a moeda única em menos de uma década? Carlos Menem, maior cabo eleitoral da idéia, acredita que tal façanha possa ser cometida até 2005, antes do engate do bloco interamericano da Alca, ensaiado para 2006.
Uma fusão Brasil-Argentina, precipitada por acordos bilaterais, já seria uma tarefa digna do trabalho de 12 Hércules. No momento, os dois parceiros juntam os cacos do choque cambial do Brasil, em janeiro. Sob a vigília (de mercado) de um choque cambial também na Argentina. Nas metas de convergência para déficit, inflação e juros, Buenos Aires corre à frente de Brasília. A distância maior é a dos juros da base: 23,50% no Brasil contra apenas 6,19% na Argentina.
O balão-de-ensaio do ‘‘Pequeno Maastricht’’ talvez não passe da louvável tentativa marqueteira de dar um ‘‘choque de credibilidade’’ na integração comercial ainda abrasiva do Mercosul.

Secos & Molhados
Dolarização?
- Quem falou em dolarização? Eu, não! Carlos Menem esclarece: 1) em prazo ainda não determinado, haveria a moeda comum do Mercosul ampliado. 2) lá na frente, com a maturação da Alca, seria adotada a moeda única para os 34 países das três Américas - o dólar, of course.
Faltou dizer
- O presidente argentino poderia ter fechado o raciocínio com seu aforismo favorito: ‘‘Del dicho al hecho hay siempre un gran trecho.’’
Irreversível
- A moeda única é fita de chegada e não tiro de partida na formação e consolidação de blocos econômicos. No futuro, cada bloco terá sua moeda única. Ou apenas quatro ou cinco moedas em todo o mundo, por volta de 2020.
Três por três
- Única certeza, por enquanto. A moeda única exige de cada país membro tetos de 3% do PIB para o déficit público nominal, 3% do PIB para o déficit das contas externas e 3% ao ano para a inflação.

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