‘‘Pelo mérito de ser um ativo bancário, o capital financeiro adquiriu a habilidade extremada de adicionar valor a si mesmo.’’
Karl Heinrich Marx (1818-1883), filósofo alemão

Sistema vitaminado
Bancos brasileiros passam a respeitar o teto de 60% do patrimônio líquido em sua exposição a riscos cambiais. A decisão do Conselho Monetário Nacional coloca o sistema bancário brasileiro dentro de uma verdadeira casamata no tiroteio a esmo da crise global. O tal de Banco Marka entrou no choque cambial de janeiro com um risco equivalente a 20 vezes o patrimônio líquido. Acabou estatelado na UTI do BC. Uma UTI com direito a CPI.
Bancos estrangeiros estabelecidos no País e bancos brasileiros com participação estrangeira no capital podem furar o teto de 60% porque estão normalmente protegidos em moeda forte pelas respectivas matrizes.
Outras medidas do Banco Central também vestem a camisa da solidez operacional do sistema. E o próprio Banco Central cuida de adensar as normas e as práticas da supervisão bancária - antes que o Senado aprofunde a idéia de deslocar essa atribuição da autoridade monetária para uma agência autônoma de fiscalização do sistema financeiro. Tal como se faz na Inglaterra e na Alemanha.
As políticas nacionais de regulação financeira estão sendo revistas e reforçadas em meio mundo - tamanho o grau de vulnerabilidade dos bancos centrais e das economias nacionais aos estilhaços da crise especulativa sem fronteira e sem bandeira. A globalização financeira forçou a barra da desregulamentação interna e externa dos bancos, fundos, bolsas e derivados - sob a fuzarca da alavancagem e dos derivativos. Na crise da Àsia, por exemplo, o sistema financeiro americano ficou mais a perigo que o sistema bancário brasileiro...
Novos padrões de supervisão bancária e de proteção sistêmica, em todos os países ajuizados, abrem condição técnica e espaço político para uma futura regulação pactuada no mercado financeiro global. Ainda no caso brasileiro, o Banco Central houve por bem descontaminar contágios de alto risco entre bancos comerciais, empresas coligadas e fundos de investimento. E mais: a partir de julho, os bancos terão de informar ao Banco Central, ao fim de cada dia, as posições ativas e passivas atreladas ao câmbio.
No mesmo embalo regulatório, o Conselho Monetário Nacional elevou os valores do capital mínimo para a abertura de novos bancos e para o funcionamento dos bancos já existentes. Tudo como manda o figurino do chamado Acordo da Basiléia. Um tratado internacional que padroniza normas de segurança bancária em defesa do sono dos acionistas e do sonho dos correntistas.
Em todo o mundo, o que mais apavora a sociedade é uma crise bancária sistêmica. Não é preciso exagerar, mas intervenções de dissuasão de riscos sistêmicos é o caro que sai barato para todos.

Secos & Molhados
Duplicando
O comércio mundial de mercadorias dobrou de tamanho nesta década de 90, arranque da globalização. As trocas globais saltaram de US$ 4,1 trilhões, em 1990, para prováveis US$ 8,3 trilhões em 1999. Crescimento médio de 7% ao ano.
Explodindo
O mercado de ações global simplesmente cresceu 14 vezes. Ele disparou de US$ 120 bilhões, em 1990, para US$ 1,8 trilhão no ano passado. Expansão média de 28% ao ano.
Espalhando
O capital produtivo das multinacionais, que se consideravam empresas globais antes da globalização, espalhou-se na direção do Terceiro Mundo. Até 1990, a transferência anual não passava de US$ 35 bilhões. Agora, já está acima de US$ 170 bilhões.
Delirando
E o que dizer do estoque global de derivativos, coqueluche financeira da década? Os contratos em aberto ensaiam totalizar este ano, US$ 52 trilhões. Exatamente o dobro do PIB mundial.

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