Joelmir Beting
A proteção furada
O desmanche pactuado do protecionismo comercial ainda praticado por países desenvolvidos, emergentes e submergentes, será discutido na conferência de cúpula América Latina-União Européia, programada para o Rio de Janeiro, nos dias 28 e 29 de junho. Em escala global, a abrasiva matéria será tratada na III Conferência Ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), agendada para 30 de novembro a 3 de dezembro, em Seattle, sede americana da Boeing e da Microsoft.
Conferência também conhecida por Rodada do Milênio.
No encontro do Rio, a União Européia espera discutir a redução do protecionismo setor por setor e, se possível, produto por produto.
Negativo! Chefes de Estado da América Latina, reunidos no último fim de semana no México, pelo chamado Grupo do Rio, avisaram que vão exigir da União Européia a discussão de um projeto de abertura integral. Ou seja: derrubada das barreiras para todos os mercados em bloco, incluídos o de serviços.
A questão de fundo é o que se poderia chamar de Paradoxo Europeu. O megabloco dos 15 países que integram a União Européia, já na idade da moeda única, mais parece um castelo medieval fortificado no interior de muralhas protecionistas da altura de 7% do PIB. Uma combinação de subsídios (para a produção interna) e de confiscos (para os similares importados). Estudo do Instituto de Estudos Políticos de Paris, prefaciado por Patrick Messerlin, estima que os custos diretos e indiretos do protecionismo comercial se aproximam, este ano, de US$ 600 bilhões. Como não existe almoço de graça, os contribuintes acabam pagando pesado pelos supostos donativos que estariam faturando como produtores e/ou consumidores.
Eis o paradoxo europeu, segundo Messerlin: Os consumidores pagam preços menores em troca de impostos maiores para todos. Um mercado protegido resulta em menores opções de consumo e em menores ganhos de produtividade - porque menores os choques de competitividade. E o pior: dois terços da proteção socializada pelos impostos acabam engordando os lucros privados dos produtores assim protegidos. Com recorde de desemprego estrutural. O mesmo estudo revela que cada emprego mantido pelo protecionismo europeu está custando à sociedade US$ 215 mil. O mesmo recurso poderia gerar três novos empregos em programas de fomento da economia de serviços, ainda um tanto quanto encruada da Europa. E o futuro do trabalho humano está na economia de serviços, como atesta, estrepitosamente, o paradigma americano.
Para o Brasil, que ainda quebra a cara e o bolso nas barreiras européias, o discurso europeu da proteção do emprego é conversa fiada de esperar o trem que não vem.
Secos & Molhados
Um bilhão por dia
- Pesquisa da OMC revela que o setor agrícola absorve dois terços dos gastos com protecionismo comercial dos países desenvolvidos. Ano passado, essa conta foi da ordem de US$ 365 bilhões.
Suíça campeã
- Os subsídios agrícolas, com ou sem fins protecionistas, alcançam 73% do valor total da produção na Suíça. Na União Européia, a média é de 45%. Nos Estados Unidos, 22%.
Os cinco mais
- Para entrar na União Européia, eis os produtos mais tarifados: 1) carne bovina, 87,7% ; 2) cereais, 67,8%; 3) açúcar, 61,8%; 4) fumo ou tabaco, 58,8%; 5) laticínios, 57,6%. No setor industrial, 34 produtos distintos pagam entre 20% e 30%.
Tudo ou nada
- Os Estados Unidos topam acabar com subsídios e confiscos na Rodada do Milênio se a União Européia fizer a mesma coisa. Foi o que disse, em Paris, a representante americana de Comércio, Charlene Barshefsky, ao chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia.





