Joelmir Beting
A economia brasileira desperta sentimentos contraditórios. A única certeza, agora, é que nem a euforia nem a depressão fazem sentido.
André Lahóz, jornalista
A biruta virou
A recessão está no fim. Se é que já acabou. É o que diz o presidente do Banco Central, Armínio Fraga. E mais: Se a inflação continuar bem comportada, perto da deflação neste segundo trimestre, os juros também continuarão em queda, liberando energia para a recuperação geral da economia já no segundo semestre e não só a partir do ano que vem. Amém.
Para Armínio Fraga, a reativação dos negócios deve começar pela base dos investimentos produtivos e não, propriamente, pela ponta do consumo. Mas haverá, segundo ele, um empurrãozinho pelos lados do mercado de bens duráveis. Tradução: pode ocorrer, sem alarde, uma distensão monetária na economia. Que ainda resfolega nas rampas do crédito bancário mais curto e mais caro do mundo.
Empréstimos maiores a custos e juros menores encheriam a bola murcha não apenas do consumo movido a crediário. Tocariam fogo nas caldeiras da construção habitacional, com grande efeito multiplicador no setor industrial, na economia de serviços e no mercado de trabalho. Existe nas gavetas da construção reprimida um certo Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), ainda zero km, pedindo passagem. Um programa de mercado e não de governo, com potencial para financiar até 850 mil casas e apartamentos por ano. Que tal?
A economia rural também entra no cabo-de-guerra da retomada econômica (com estabilidade monetária). A safra de verão, no Centro-Sul, ignorou a sinistrose do segundo semestre do ano passado e promete um novo arranque a partir da decisão de plantio agora em julho e agosto. Os mercados de máquinas e equipamentos agrícolas já estão devidamente reaquecidos. As lavouras de exportação recuperam no câmbio justo o que deixaram de ganhar na queda dos preços lá fora.
No capítulo da retomada dos investimentos produtivos, Armínio Fraga aposta em quatro movimentos encadeados: 1) o reengate dos projetos, contratos e encomendas das multinacionais; 2) a aceleração dos negócios privados na ampliação e modernização da infra-estrutura econômica recentemente privatizada; 3) a corrida industrial nos nichos de substituição de importações; 4) o avanço da reestruturação produtiva em empresas de todos os setores e tamanhos.
A virada da biruta tem a ver com a reversão das expectativas dos agentes econômicos da chamada economia real - já refeita dos estragos do choque cambial de janeiro e fevereiro. Estragos provocados menos pela mudança no regime de câmbio (que era uma solução e não um problema) e mais pelas previsões alarmistas da quase totalidade dos formadores de opinião. Aqueles birutas da análise econômica que chutaram, por este ano, uma recessão de 7,5% (Morgan Stanley), com inflação acima de 80% (Lehman Brothers). Ah! Com moratória da dívida externa (Deutsche Bank)
Secos & Molhados
Qual é o PIB?
- Se a recessão não passou de um pesadelo de uma noite de verão, qual seria o desempenho do PIB até dezembro? Para auditórios contritos, Armínio Fraga arrisca crescimento de 1% este ano e 4% no ano que vem. Na hipótese pessimista, admite crescimento zero. Que não é recessão. É estagnação.
Falta muito
- Para a ignição de um ciclo de desenvolvimento sustentado e duradouro, com estabilidade monetária e reestruturação produtiva, o elo perdido ainda é o desarranjo das contas públicas, com sobras para as contas externas. A reforma do Estado brasileiro é o fator condicionante. Tudo o mais são fatores condicionados.
E o emprego?
- O aumento do trabalho no mercado formal e na economia informal (com emprego idem) terá de aguardar um PIB de 7% ao ano, no mínimo. Expansão de 2,4% seria esgotada pela geração em busca do primeiro emprego. E mais 4,5% serviriam apenas para hospedar os ganhos de produtividade do fator trabalho na economia que se moderniza.





