Joelmir Beting
Joelmir Beting
A economia só resolve um problema antigo criando dois problemas novos.
Albert Hirschman, economista americano
Na vigília dos juros
Rico parou de rir à toa. Ou melhor: rico parou de rir. O europeu fecha a cara porque a economia cresce pouco e o desemprego não arreda pé da média de 11% no bloco de US$ 7,2 trilhões. O americano suspira fundo porque, se melhorar, estraga. Uma década de crescimento econômico com estabilidade monetária pode estar no último fôlego de sete gatos. E não por redução do produto nacional de US$ 8,4 trilhões, mas por aumento da inflação friccional.
Com desemprego de apenas 4,1% e com PIB em expansão anual de 4,5%, a renda dos indivíduos e das famílias deu de crescer à frente dos ganhos de produtividade da economia. Gatilho da inflação de demanda, insônia dos monetaristas enrustidos. Que ainda não se tocaram no detalhe de fundo: os americanos estão ganhando 14% ao ano no mercado de ações e deram de converter consumo supérfluo em poupança líquida e rentável.
Outro detalhe digno de reflexão: a temível inflação de demanda está contida na jaula menos por arrocho monetário ou garrote tributário e mais por choques encavalados de competição com modernização em escala nunca registrada até meados da década passada. Guardadas as proporções, idêntico fenômeno ocorre aqui no Brasil do Real. Acrescido de garrote tributário e arrocho monetário.
Pelo sim, pelo não, o mundo todo aguarda, a qualquer momento, uma elevação de caráter corretivo (ou preventivo) dos juros made in USA. Corretivo para a euforia rosca sem-fim do mercado de ações. É preventivo para o aborto da inflação de demanda que estaria em gestação no ventre da prosperidade nacional bruta.
O Brasil não tem o que temer no viés de alta dos juros de Alan Greenspan, mesmo com o viés de baixa dos juros de Fraga & Malan. Palavra do Morgan Stanley Dean Witter, de Nova York. Primeiro: os juros brasileiros têm muita gordura para queimar, sem afugentar os capitais ciganos que por aqui transitam como quem entra e sai de ducha fria - sempre correndo. Segundo: o mercado brasileiro já encontrou a banda de equilíbrio para o câmbio flutuante. Terceiro: a inflação brasileira safou-se com um piparote do choque da desvalorização e da sinuca da reindexação. Sobrou no ar de maio um odor de deflação. Quarto: sem recessão.
Quinto ponto, menos visível, destacado pelo Morgan Stanley: o sistema bancário brasileiro é o menos vulnerável da América Latina (e dos países emergentes em geral) para uma puxada dos juros pelo Fed. Seguinte: nossos bancos desfilam um invejável retorno sobre o capital de 22% ao ano. Menos por ganhos de empréstimos ao setor produtivo e mais por lucros de Tesouraria, os do financiamento do déficit público. E ainda: os créditos são de qualidade superior aos da América Latina, com inadimplência de 1,9% (sem os bancos estatais), contra 18,8% na Argentina. E fechando a roda: a provisão bancária média para créditos a perigo é de 306%. Ou cinco vezes maior do que no México.
Secos & molhados
Último tango
- Há quem veja na alta dos juros americanos com aviso prévio o último tango da rigidez cambial na Argentina. Com moeda nacional chumbada ao dólar, haveria aumento dos juros também em Buenos Aires. Em tempo de recessão.
Risco total
- A dolarização radical da Argentina seria passagem só de ida para uma viagem de altíssimo risco - incluído o risco político da perda consentida de soberania nacional sobre políticas cambial, monetária e fiscal.
Fragilidade
- A desvalorização do peso aumentaria a aflição dos aflitos: 60% dos créditos internos ao setor produtivo estão contratados em dólar. Para uma inadimplência bancária já da ordem de 18,8%, a desvalorização seria um desastre bancário de padrão asiático...
Sem saída
- Sustentar a paridade 1x1 com direito à conversibilidade plena agrava a erosão da competitividade argentina. Com queda de 80% nas vendas de automóveis para o Brasil.





