‘‘Em certas condições de mercado, tal como na prática política, a ausência de alternativas torna as mentes duras espantosamente claras.’’
Henry Kissinger, consultor americano.

Álcool sem Proálcool
Que tal reduzir a tributação sobre a renda em troca do aumento da tributação sobre a gasolina? A proposta é de Gregory Mankiw, professor de Economia em Harvard e autor do livro Principles of Economics. Ele justifica a idéia na revista Fortune e dá números aos tributos: menos 10% na alíquota do Imposto de Renda das pessoas físicas teria cobertura integral em mais 50 centavos por galão no ‘‘gas tax’’ da frota americana, a mais energívora do planeta.
Gregory Mankiw explica que o objetivo da proposta não é tributário e, sim, ecológico. Encarecer a gasolina numa simples penada fiscal abriria margem futura para a substituição progressiva do combustível fóssil e sujo pelo combustível verde da biomassa renovável. Sem reduzir a carga tributária da economia e da sociedade, da ordem de 32% do PIB americano, a política fiscal se permite o luxo de remanejar as alíquotas dentro dela. Por exemplo: se a tributação da gasolina é regressiva (por tratar igualmente os desiguais), que se promova na redução do Imposto de Renda, dentro do desconto médio de 10%, um corte maior para quem ganha menos.
O que interessa na proposta do professor americano é o crescimento do prestígio político, nos Estados Unidos, do álcool anidro para mistura carburante com gasolina e com diesel. Ainda não se fala em carros movidos exclusivamente a álcool hidratado, experiência única e madura de um país da América do Sul chamado Brasil.
O problema é que o Brasil trapalhão quase fez do carro a álcool um animal em extinção, na mesma sina da ariranha e do mico- leão. O ministro Celso Lafer é que comanda a virada do jogo quase perdido. E tome uma penca de providências até recentemente engavetadas. Vem aí a elevação da mistura carburante de 24% para 26% na gasolina e a estréia dela também no óleo diesel, já rotulado de biodiesel. A isenção do IPI para táxis será uma exclusividade do carro a álcool. O programa de renovação incentivada da frota sucatada (com mais de 15 anos de uso) deverá estabelecer reserva de mercado para o carro a álcool. Os preços do álcool na produção, agora em liberdade, sem subsídios ostensivos ou camuflados, ‘‘estão próximos de um patamar realista’’, dizem os técnicos da estreante Bolsa Brasileira de Álcool.
E mais: estuda-se a idéia de liberar dos rodízios municipais e estaduais a manada que trafega sem gasolina. E, fechando a roda, as montadoras acabam de se comprometer, em tom solene, com o reinício da produção seriada do carro a álcool. O ‘‘ponto-de-venda’’ estratégico da ilustre mercadoria, a garantia do suprimento do álcool, está plenamente restabelecido. A nova safra do Centro-Sul nem bem começou e ainda temos 2,1 bilhões de litros herdados da safra passada. As destilarias totalizam uma capacidade de produção de 16,5 bilhões de litros por ano/safra. Ou 35% acima da necessidade do mercado.


Secos & Molhados
Troca-troca
Um aumento do ICMS de 25% para 27% na gasolina permitiria, sem perda de receita, uma redução do ICMS de 25% para 7% no álcool. O cálculo é da União da Agroindústria Canavieira (Única) em proposta ao governador paulista Mário Covas.
Sem bitola
Os preços do álcool estão sem referência. No portão da destilaria, havia ofertas abaixo de R$ 0,20 por litro. Na bomba da esquina, a coisa ia de R$ 0,35 a R$ 0,65. Alta orquestrada na produção deve alcançar o consumo agora no feriadão.
Preço justo
O produtor Maurílio Biagi Filho diz que o mercado vai encontrar o preço de equilíbrio para o hidratado do carro a álcool. Alguma coisa perto de 40% abaixo do preço da gasolina misturada.
Todos por um
Metalúrgicos da cadeia automotiva e trabalhadores da agroindústria canavieira aceleram movimentos de pressão do tipo ‘‘Grito Pela Produção e Pelo Emprego’’. O assunto derrama-se da área técnica para a arena política. É aí que o carro pega.

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