Contagem regressiva
Dolarizar para não desvalorizar. Ou desvalorizar para não dolarizar. O dilema argentino está em contagem regressiva perto de zero. Ou mergulha de cabeça na desvalorização do peso, como espera o mercado. Ou arrisca tudo na dolarização terminal, como ensaia o governo. Continuar como está é que não vai dar - proclamam os empresários argentinos em simpósios, manifestos e passeatas.
O certo é que o peso argentino acumula uma sobrevalorização da ordem de 35% em nove anos corridos de paridade fixa com conversibilidade garantida. Isso destrói a capacidade de competição da economia para dentro e para fora. ‘‘O setor produtivo já está no último fôlego de sete gatos’’, diz o economista Jorge Lenicov. A defasagem cambial tornou-se corrosiva com a queda de 24%, em média, nos últimos dois anos, do valor das commodities de exportação - que respondem por dois terços das vendas externas totais. A recente deterioração das contas públicas também estremece a sustentação do câmbio fixo nas barbas de um mercado global cada vez mais histérico.
A liberação do câmbio no Brasil e o alargamento da banda cambial no Chile contribuíram, igualmente, para o ‘‘isolamento monetário’’ da Argentina dentro do Mercosul e arredores. Para a maioria dos economistas e empresários argentinos, a desvalorização do peso seria o mal menor. Tal como se viu agora no Brasil, um ajuste cambial seria uma solução e não um problema.
O presidente Carlos Menem e o ministro Roque Fernández obrigam-se por dever de ofício a rechaçar qualquer proposta de desvalorização. Não se passa aviso prévio sobre mudanças no câmbio. Há até quem diga que o projeto de dolarização, vazado pelo próprio governo, não passa de um blefe de boca para esvaziar um ataque especulativo contra o peso ainda atrelado ao dólar.
A idéia da dolarização por decreto, lançada por Jorge Castro, secretário de Planejamento Estratégico, desperta um estrepitoso debate acadêmico dentro e fora da Argentina. Afinal, não se trata de um Porto Rico ou de uma Hong Kong. Trata-se de uma Argentina com crachá de ‘‘global player’’, dona de um PIB do exato tamanho do PIB da Rússia, estimado em US$ 310 bilhões.
A dolarização oficial - e não apenas oficiosa - aguça os estudiosos da economia globalizante também por se tratar de uma passagem só de ida para uma viagem de alto risco. Incluído o risco político maior: o da perda consentida da soberania nacional. O centro do poder sobre política cambial, monetária e fiscal seria deslocado da Casa Rosada para a Casa Branca. Se é que haveria lastro suficiente, em dólares, na própria Argentina, para sustentar esse abandono sumário da moeda nacional. Um autêntico haraquiri monetário.


Secos & Molhados
Fim de linha
- Autor do plano de conversibilidade, lançado em junho de 1991, o ex-ministro e presidenciável Domingo Cavallo disse quinta-feira, em São Paulo, que o câmbio fixo padece de fadiga do material. Por culpa da crise global e do desajuste fiscal.
Terceira via
- Domingo Cavallo sustenta que a desvalorização seria um retrocesso e a dolarização um tiro no escuro. A saída está numa terceira via: a costura da moeda única para um futuro mercado comum da América do Sul. ‘‘Tarefa para estadistas’’, alfinetou.
Com pressa
- Um ajuste cambial de mercado, necessariamente traumático, teria de ser feito o mais cedo possível. Haveria tempo de absorção do choque, com recuperação geral, antes das eleições presidenciais de outubro. No Brasil, o choque durou apenas 40 dias.
O que é bom...
- Para o Brasil, o que interessa é a estabilidade monetária do maior parceiro do Mercosul - com crescimento econômico. O que é bom para a Argentina é bom para o Brasil. E o que é bom para o Brasil é bom para a Argentina.

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