Joelmir Beting
Renovação no desvio
A renovação do acordo automotivo por mais três meses não pode perder de vista o projeto automotivo mais importante para a reaceleração do mercado, a ampliação do emprego, a reabilitação do carro a álcool, a segurança do trânsito e a proteção ambiental. Essa quase panacéia está embutida no programa ainda engavetado da renovação incentivada da trota frota sucatada. Ou perto de 4,4 milhões de automóveis com mais de 15 anos de uso e de abuso.
De interesse nacional, o programa não deve ser encarado como mero refresco tributário para quem gostaria de dar o carro velho em operação casada com a compra do carro novo. O programa envolve questões econômicas, sociais, tecnológicas e ambientais. A matéria já está tecnicamente resolvida. Até porque há uma vasta experiência internacional dando canja a quem interessar possa.
É o que demonstra um estudo realizado pela empresa de consultoria A. T. Kearney. Ela se serviu de programas americanos e europeus para ajustar a mira do assunto aqui no Brasil. Onde circulam, hoje, 21 milhões de veículos, com 17,5 milhões de automóveis e comerciais leves. Um em cada quatro com mais de 15 anos de carreira. A sucata ambulante, em sua quase totalidade, é feita de veículos sem manutenção adequada. Resultado: índices inaceitáveis de acidentes de trânsito e de panes de rua e de estrada. De sobremesa, excesso de consumo de combustível e de emissão de gases poluentes.
Nos cálculos do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a substituição incentivada de pelo menos um décimo dessa bananeira que já deu cacho abriria mercado adicional para 440 mil novos carros, com a abertura de 65 mil novos empregos na cadeia automotiva. E o que dizer dos empregos que seriam ativados pelos serviços privados de inspeção veicular e pelos negócios da reciclagem industrial?
O estudo da A. T. Kearney contabiliza para toda a frota com mais de 15 anos de rodagem uma reciclagem de 283 mil toneladas de aço, 81 mil toneladas de plásticos e elastômeros, 55 mil toneladas de ferro fundido, 28 mil toneladas de metais não-ferrosos e 22 mil toneladas de vidro. Não é de jogar fora. Nos Estados Unidos, a reciclagem é feita em bruto. Prensado por máquinas dignas de George Lucas, o calhambeque não eviscerado é transformado num cubo de 1 metro. Um negócio de US$ 6 bilhões em 1998. Na Europa, o carro é desmanchado e reciclado por tipo de material.
O Brasil ainda tropeça na falta de apetência e de decisão. A idéia de redução permanente de impostos para a troca do velho pelo novo causa repugnância tecnocrática na União e nos Estados. A reversão da progressividade das taxas do IPVA provoca arrepios éticos: carro velho é carro de pobre. Maior a idade do veículo, menor a facada do imposto. Lá fora, faz-se exatamente o contrário.
Secos & Molhados
Inspeção 1
- A inspeção veicular obrigatória entra em vigor em janeiro. Ela enche a bola da renovação da frota. Veículos sem manutenção adequada serão banidos da cidade e da estrada. Exigência com aviso prévio da Resolução 809 do Contran.
Inspeção 2
- O problema da inspeção veicular está na briga de foice, que já começou, entre grupos privados interessados no negócio. Uma atividade que exige capacitação e idoneidade.
Reciclagem 1
- Haverá incentivos para o espalhamento de Centros de Desmonte e Reciclagem de Veículos (CDRV). Nos Estados Unidos, o negócio alcança 95% da frota descartada (11 milhões por ano) e movimenta mais de 7 mil empresas do tipo CDRV.
Reciclagem 2
- Maior recicladora de metais ferrosos da América Latina, a Gerdau Metálicos decidiu entrar no negócio dos carros. Ela começa com um CDRV no Rio de Janeiro e outro em Santo André, SP.





