Quem não leva a sério a preparação de algo, está se preparando para fracassar.
Benjamin Franklin (1706-1790), presidente americano


Cercando a febre

Confirmado: Mato Grosso do Sul, com crachá de zona tampão, fica isolado do mercado brasileiro da pecuária de corte a partir de 1º de julho. Objetivo: garantir ao rebanho de sete Estados do Centro-Oeste, em maio do ano que vem, a certificação internacional de área livre de febre aftosa. Assunto tratado agora, em Paris, na assembléia anual da Organização Internacional de Epizootias (OIE).
Com 20 milhões de cabeças, Mato Grosso do Sul é o maior produtor do chamado Circuito Pecuário do Centro-Oeste (MT, MS, GO, DF, MG, SP e PR). Os Estados do Centro-Oeste estão há 38 meses sem registro de qualquer caso. Exceção de Mato Grosso do Sul, com focos localizados em Porto Murtinho e Naviraí. Apenas dois Estados ostentam o certificado da OIE: Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Para tanto, comprovaram prazo mínimo de 24 meses sem registro de qualquer foco de aftosa. E não baixam a guarda de um adequado aparato de defesa sanitária.
O secretário da Agricultura de São Paulo, João Carlos de Souza Meirelles, que participa da assembléia anual de Paris, explica que a decretação da zona tampão não impede a circulação de animais para dentro ou para fora dela. O que muda é o seguinte: bois procedentes da zona tampão passam por exames sorológicos. Aprovados nos exames, os animais podem circular livremente, mas aguardam reexames para o abate em frigoríficos. Somente a carne desossada pode sair do MS sem grilo.
Com 97% do rebanho já vacinado, São Paulo é o maior interessado na defesa sanitária de Mato Grosso do Sul. A indústria paulista abate 800 mil cabeças por ano provenientes do vizinho. A Secretaria da Agricultura montou na divisa 51 barreiras fixas e móveis. Ela realiza coleta de amostras em rebanhos sorteados de 280 municípios paulistas. São Paulo tem 13 milhões de cabeças para essa defesa sanitária.
Defesa sanitária? Há quem não goste disso. Exemplo: pecuaristas que identificam na zona tampão com aviso prévio (1º de julho) um lance de derrubada dos preços por pressão da oferta antecipada. Em condições normais, em maio, 80 caminhões de gado mato-grossense atravessam a fronteira paulista diariamente. Agora, mais de 200. Os preços da arroba do boi gordo caíram 10% nas últimas três semanas. Também por obra do frio que já chegou. Ele pode secar pastagens e emagrecer rebanhos. Desova sazonal de estoques.
O secretário João Carlos de Souza Meirelles, que é do ramo, diz que não se pode protelar a zona tampão nem afrouxar o controle da aftosa. Uma operação de guerra que já dura 15 anos, sob as luzes do Conselho Nacional da Pecuária de Corte e do Fundo de Desenvolvimento da Pecuária (Fundepec). Pecuaristas reclamam do oportunismo dos fabricantes das vacinas. A dose disparou de R$ 0,28, em novembro, para R$ 0,75, agora em maio. Pode?


Passaporte
-  Dono da carne bovina mais competitiva do mundo, o Brasil terá de livrar-se da febre aftosa para furar o protecionismo sanitário de americanos, europeus e asiáticos. Sem o sinal verde da OIE, perderá um mercado externo de US$ 1 bilhão, no mínimo.
Alto risco
-  Difícil é erradicar a aftosa no Norte e no Nordeste. Onde os rebanhos carregam zoonoses de todo tipo. Uma delas, a brucelose, afeta também a saúde humana.
Hormônios
-  A questão sanitária esquenta a guerra comercial entre Estados Unidos e União Européia. Reabre-se, esta semana, o contencioso da carne bovina americana, barrada há nove anos na Europa. Por excesso de adição de hormônios para ganho de peso.
Rastreabilidade
-  Da carne brasileira, a Europa vai exigir algo mais que o Brazilian Beef no rótulo. A partir de 1.º de janeiro, a embalagem deverá trazer a ficha de rastreabilidade do produto, incluída a identidade da raça e da matriz. Lições da vaca louca inglesa.

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