‘‘No calendário do futebol brasileiro, nossos melhores jogadores não têm mais tempo de ir ao banheiro.’’
Luiz Felipe Scolari, técnico da S. E. Palmeiras

Entretenimento S.A.
Campeão catarinense há duas semanas, quebrando um jejum de dez anos, o Figueirense acaba de eliminar, em reforma estatutária, os cargos de presidente e de diretoria. Eles foram substituídos por um Conselho de Gestão, integrado por dez empresários e executivos de Florianópolis.
Nas ondas da Lei Pelé, vai assumir a condição de clube - empresa e transformar seu velho estádio em shopping center. Com um campo de futebol dentro dele. Cercado de 28 mil torcedores sentados. Fundos de pensão e dois grandes bancos já toparam financiar o projeto.
A profissionalização do futebol profissional já virou um movimento epidêmico. Contamina clubes grandes, médios e pequenos. Das capitais e de cidades do interior. E não menos fantástico com dezenas de grupos multinacionais, com ou sem raiz nos gramados, pedindo passagem na carpintaria ainda ressabiada do Futebol S.A. verde-amarelo. Até aqui, um tetra mundial dentro do campo e um perna-de-pau fora dele.
Camisa, coração e torcida de lado, qual é o pulo do gato? Seguinte: o clube que não embarcar nesse bonde que passa não mais erguerá uma única taça no futuro que já chegou. Clubes que não mais conseguem pagar as contas do fim do mês. Não poucos sobrevivem a golpes de sonegação de impostos e de encargos. Além, claro, do atraso no pagamento de salários aviltados. E o que dizer da (des)organização de campeonatos sem calendário e sem apetência, com times de ponta realizando quatro jogos de domingo a domingo?
Pois tome o desembarque nesse mercado, ainda por fazer, de grifes com toque de Midas. Nomes, logos e siglas nacionais e estrangeiros jamais sonhados pela galera das gerais e das arquibancadas da bola: Opportunity, Enic, Octagon, Procter & Gamble, Traffic, Media Partners, Bank of America, NationsBank, Hicks Muse Furst & Taste, Deloitte & Touche, International Management Group (IMG), International Sports Leisure (ISL), Lowe & Loducca, Pelé Sports & Marketing, Interpublic Group e por aí vai. Sem contar a Parmalat, primeiro contrato de co-gestão do futebol brasileiro.
Pano de fundo dessa revolução. Primeiro: o entretenimento já é, disparado, a maior indústria do mundo em negócios diretos e indiretos. Vem aí a civilização do lazer, com o bicho-homem trabalhando cinco horas por dia. Ou quatro dias por semana. Segundo: o esporte, no conceito de show biz, já é o maior setor da economia do entretenimento. Terceiro: o futebol é o maior segmento da indústria do esporte. A única modalidade esportiva verdadeiramente globalizada.
Nesse ambiente, não são os clubes que se abrem para o big business. São os atores do big business, incluídos os negócios da multimídia eletrônica, que estão invadindo os clubes. Não raro, comprando clubes e até mesmo fundando clubes. Em regime de sociedade anômica de capital aberto, com ações negociadas em bolsa.


Secos & Molhados
Meio bilhão
- Negócios de clubes com empresas, já amarrados ou ainda em gestação, acabam de ultrapassar R$ 500 milhões. Na soma de contratos de patrocínio com exposição de marca e de contratos de co-gestão e de participação acionária.
Nova força
- Dois em cada três negócios em armação no futebol brasileiro são tocados por fundos estrangeiros de ‘‘private equity’’. Que bicho é esse? São condomínios de investidores globais que adoram fazer posição em empresas ou negócios mal geridos ou em mercados em crise ou mal explorados.
Sem marca
- Esse tipo de ‘‘patrono’’ não gosta de aparecer na camisa do clube. Ele entra em campo para valorizar o clube, capitalizar o negócio e passá-lo adiante mais à frente, realizando o lucro.
Propaganda
- No Brasil, tal como na Inglaterra, apareceu um novo tipo de investidor em camisas de futebol: agências de propaganda. O Rio Branco de Americana, SP, acaba de fechar negócio com a pioneira Lowe & Loducca.

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