Joelmir Beting
Os bancos são sempre os mesmos. O que muda são os bolsos.
Woody Allen, cineasta americano
Sistema em ebulição
A transição do sistema bancário brasileiro de um regime regulado e excludente para um mercado aberto e efervescente ainda não terminou. Mas já alterou, estrepitosamente, o formato e o conteúdo dos bancos, dos produtos, dos serviços, dos mercados. Com dois movimentos telúricos dentro dessa transição que já dura sete anos: 1) a concentração do sistema em um número cada vez menor de bancos cada vez maiores; 2) a desnacionalização crescente dos ativos bancários por força da invasão de bancos estrangeiros no sistema.
A concentração bancária deita raiz nos desafios da competição e da modernização das instituições financeiras. A conquista de uma fatia maior de um bolo de mercado ainda meio encruado é exigência da regra de ouro do sistema: a economia de escala. A alma do negócio, desde que ele foi inventado pelos lombardos no século 15, antes da descoberta do Brasil, está em ganhar cada vez menos sobre cada vez mais. Especialmente em ambiente de estabilidade monetária, que elimina os ganhos inflacionários do trânsito de recursos (float).
Estudo de Antônio Chagas Meirelles, ex-diretor do Banco Central, projeta o grau de concentração bancária de 1997 para o ano 2002. Um espanto! Provavelmente, o maior banco brasileiro estará concentrando, naquele ano, 30% do total dos ativos bancários da rede privada (se é que sobrará algum banco estatal naquele ano). Hoje, essa mesma fatia está dividida quase salomonicamente entre Bradesco e Itaú. Não que ambos venham a se fundir num único banco. É que um deles poderia, por exemplo, comprar agora o Banespa...
A concentração bancária na vertical do sistema (número menor de bancos maiores) também se faz na horizontal do mercado (número menor de agências com número menor de funcionários). Desde 1994, houve redução de 13% no número de agências e de 14% no número de bancários. A ordem é obter o máximo de movimento por agência e por funcionário. Isso reduz o custo por unidade de produto. A automação bancária é o atalho. O banco virtual é o futuro.
A desnacionalização dos ativos bancários, fenômeno recente, já causa arrepios. Bancos estrangeiros saltaram de 11% dos ativos totais, em janeiro de 1994, para 36% em março último. Eles crescem pela vertical das operações e pela horizontal das incorporações (de bancos brasileiros). Esse espalhamento ainda está a meio caminho. Os bancos globais (que estão em processo paroxístico de concentração nos dois lados do Atlântico Norte) apostam na expansão continuada do mercado financeiro verde-amarelo.
Afinal, como em tantos outros setores da economia, ainda estamos no estágio da subutilização do sistema bancário - pelos padrões americanos, europeus e japoneses. A massa de crédito ao setor produtivo não tem passado de 30% do PIB (contra mais de 80% lá fora). No crédito ao consumo, não chega a 2%. E perto de dois em cada três brasileiros adultos continuam sem conta em banco.
Secos & Molhados
Elefantíase
- Em 30 anos de inflação indexada, a multiplicação dos ativos financeiros e dos serviços bancários e não-bancários foi de tal ordem que o setor chegou a responder, antes do Plano Real, por até 17% do PIB, por volta de 1993. No ano passado, 7%. Na média mundial, 7%.
Caso único
- Em endereços diversos das regiões metropolitanas, o Brasil chegou a ter quatro agências bancárias no mesmo cruzamento de duas avenidas de tráfego denso. Até o pipoqueiro da esquina era disputado no grito pelos quatro gerentes do pedaço.
Estrutura
- O Brasil tinha, em dezembro, 175 bancos múltiplos, 29 bancos comerciais, 21 bancos de investimento, 6 bancos de desenvolvimento, 45 financeiras, 193 corretoras de valores, 37 corretoras de câmbio, 215 distribuidoras, 79 sociedades de leasing, 22 associações de poupança, 425 gestoras de consórcios e 3.524 fundos de investimento.





