Joelmir Beting
Afinal, o Brasil não é um país doente. O Brasil é um país bêbado. É diferente.
The Economist, revista inglesa
Ainda sobra gordura
A redução monitorada dos juros da base, que se faz acompanhar da redução ainda ressabiada dos juros da ponta, ainda tem muita gordura para queimar. Na base, por decisão do governo. Na ponta, por condição do mercado. A queima dessa gordura, acumulada por excesso de zelo da política monetária, autoriza a expectativa de novos cortes de base e de ponta nestes próximos 90 dias.
Como se viu ontem na reunião com aviso prévio do Copom - sigla de um protocolo burocrático chamado Comitê de Política Monetária do Banco Central, situado ao largo do Conselho Monetário Nacional -, o viés de baixa para a calibragem intermitente da taxa Selic vai continuar ativo, mesmo com o revés de alta adotado na véspera pelo Comitê de Mercado Aberto do banco central americano, o Federal Reserve, de Alan Greenspan e Alice Rivlin. Afinal, ainda não dolarizamos a moeda nacional. Sabemos errar sozinhos.
Nas apostas do mercado financeiro, já se admite uma Selic abaixo de 20% ao ano na virada do semestre. Seria o descarte final das gorduras incrustadas nos juros made in Brazil. Abaixo de 18%, digamos assim, o bisturi do Copom estaria cortando na carne, porque já no limite de uma taxa real (deflacionada pelo IGP-DI) da ordem de 10%. Taxa real projetada para a véspera do Natal.
Para o consultor Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, uma taxa nominal de 20% ficaria de bom tamanho para a travessia do terceiro trimestre. Para o consultor Raul Velloso, nesse nível de 20% já haveria um impacto positivo para a redução da dívida mobiliária do setor público. Perfeitamente factível, segundo ele, com a meta de uma dívida líquida equivalente a 3,5% do PIB ainda este ano.
A redução dos juros na base e na ponta consulta, portanto, um duplo objetivo macroeconômico: 1) aliviar a barra do serviço da dívida interna que financia o déficit público; 2) reativar a economia real, a partir da oferta de um crédito bancário maior, mais longo e menos caro. Na hipótese, claro, de que a redução dos juros na base das operações interbancárias venha a ser acompanhada pela redução dos juros na ponta dos empréstimos bancários. O que já estaria ocorrendo, em escala menos temerosa, desde a semana passada.
No campo minado da liquidez do sistema, o ajuste monetário começou, há sete dias, pela redução do porcentual do recolhimento compulsório dos bancos sobre depósitos a prazo. Esse porcentual subiu de 20% para 30% no pico do choque cambial em fevereiro e recuou agora para 25%. Com pinta de 20% no mês que vem.
Não há risco de uma rebrota da inflação de demanda, agora que o índice da Fipe, que faz a radiografia semanal da carestia na Grande São Paulo, sinalizou ontem para a probabilidade de uma deflação agora em maio. Sem delírio. O IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas, que registra a variação dos preços na produção e no consumo, não passou, em abril, de 0,03%.
Novo lance
- Na carpintaria do ajuste monetário, o Banco Central prepara-se para embarcar no expediente britânico da inflation targeting. Tradução: fixação de metas de inflação para períodos de um ano ou dois.
Modelo inglês
- Para estudar o modelo do Banco da Inglaterra, estiveram em Londres, pelo BC do B, o diretor de pesquisa Sérgio Werlang, o pesquisador-chefe Alexandre Tombini e o economista-chefe Altamir Lopes.
Transparência
- Metas de inflação para um ou dois anos dão transparência à política monetária no front dos juros, do câmbio e dos níveis de liquidez do mercado bancário. O expediente é uma beleza em ambiente de câmbio livre com inflação em declínio.
E o índice?
- Ainda não foi escolhido (se escolhido, ainda não divulgado) o índice ideal para a inflation targeting verde- amarela. O favorito seria o IPC embutido no IGP-DI da FGV.





