‘‘Todas as elites a perigo socorrem-se de seus rasputins. Que não são mães-de-santo. São falsos videntes, com doutorado no Tio Sam.’’
Luis Fernando Verissimo, jornalista e escritor.

Fiasco da cartomancia
O exercício da previsão econômica está desmoralizado no Brasil e no mundo. Lá fora, pelo advento da crise global em cascata. Aqui dentro, pela catástrofe que não houve na implosão da âncora cambial. Na primeira semana de fevereiro, dólar acima de R$ 2,10, nove em cada dez cenaristas de profissão não deixaram por menos: o real vai naufragar feito um Titanic, rasgado ao meio pelo iceberg de uma ‘‘stagflation’’ sem tamanho e sem remorso.
Atendendo a pedidos de leitores da coluna, vamos aos nomes e números de alguns bois da cartomancia encharcada de álgebra. No caso, bancos estrangeiros instalados no Brasil. O Deutsche Bank apostou em queda de 6% no PIB, com inflação de 70% até dezembro. E com dólar, na véspera do Natal da sinistrose nacional, valendo R$ 3,10. O Morgan Stanley contentou-se com inflação de 21%, mas afundou o PIB em 7,5% - a maior recessão brasileira do século.
O Citibank cravou 6% de recessão e 25% de inflação. Para o Merrill Lynch, inflação de 33%. Para o Salomon Smith Barney, 35%. E o que dizer do Lehman Brothers? Este ousou ultrapassar o Deutsche Bank e espalhou, pela Internet, que a inflação brasileira do ano alcançaria, mexicanamente, 85%. Afinal, em apenas meio ano, a da Rússia, pós-choque cambial, acumulou 67%. Certo?
Analistas e consultores de bancos estrangeiros preferem passar às respectivas matrizes (e investidores externos) as similitudes do Brasil com a Rússia, o México, a Indonésia ou a Babilônia. E não as diferenças. Mostrar que o Brasil não é a Rússia dá trabalho e não tem charme. Investir no piorômetro é mais verossímil e mais seguro. Ainda que não mais verdadeiro nem mais honesto. Ou ainda que tirando o sono da clientela aqui dentro e lá fora. Espécie de sadomasoquismo bancário, fantasiado de ‘‘realismo responsável’’.
No cenário da ‘‘stagflation’’, o da 13ª morte anunciada do Plano Real, encaixaram em fevereiro, ‘‘para algum momento de 1999’’, a variável da moratória da nossa dívida externa. De resto, uma indicação devidamente sancionada, na época, pelo calote mineiro do governador Itamar Franco, patrono do Real.
Entre perplexos e constrangidos, os cenaristas desinformados voltam à tona para classificar como ‘‘milagre’’ (efeito sem causa) a inflação outra vez perto de zero (sem a tal de âncora cambial) e a expansão do PIB em 1% no primeiro trimestre - exatamente no pedaço de mau caminho do choque cambial paralisante.
E tome nova rodada de cartomancia macroeconômica, agora guinchada por Paul Krugman, o guru do ‘‘desculpem nossa falha’’. Ele passou por aqui na semana passada e, em tom professoral, costurou duas notícias, uma boa e outra nem tanto. Seguinte: o Brasil não mais vai morrer de pneumonia dupla, agora, só vai morrer de pneumonia simples.


Secos & Molhados
Crescendo
- Tecnicamente, a recessão não vingou. Não seria um delírio imaginar, para o PIB deste ano, um crescimento de 2,5%. Assim distribuído: 1% no primeiro trimestre, 2% no segundo, 3% no terceiro e 4% no quarto.
Sem euforia
- ‘‘Cuidado com o otimismo irracional!’’ O brado de alerta é do ‘‘capo’’ do FMI, Michel Camdessus. Pena que o mesmo burocrata transnacional não tivesse advertido antes: ‘‘Cuidado com o pessimismo irracional!’’
Um suspiro
- Não existe no Brasil de maio um excesso de euforia. Tudo não passa, por enquanto, de um suspiro de alívio. Tamanha a sinistrose destilada antes do carnaval pelos profetas do Apocalipse.
Uvas verdes
- Há quem diga que os prognósticos da catástrofe verde-amarela, assinados por instituições e cenaristas estrangeiros, tiveram um propósito de raposa: rebaixar pelo pânico os preços dos ativos estatais e privados do Brasil.

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