Joelmir Beting
Como se viu na encrenca cambial, que durou quatro anos e meio, o Banco Central tem independência de mais e transparência de menos.
Antonio Delfim Netto, deputado federal (PPB-SP)
Os juros atrelados
A taxa básica de juros pode subir hoje nos Estados Unidos e adiar a nova queda da taxa básica no Brasil, esperada para amanhã. A reunião do Fed, banco central americano, tem data marcada e a decisão sobre juros costuma passar indício prévio. A reunião do BC brasileiro também tem data marcada, propositadamente programada para o dia posterior à mexida (ou não) dos juros made in USA.
Seguinte: quando os juros sobem nos Estados Unidos, investidores do mundo inteiro reforçam posições em títulos americanos públicos e privados. Esse movimento, ainda que de apenas 0,25% ao ano, tem massa crítica para desviar capitais ciganos que transitam pelos chamados mercados emergentes, Brasil hoje à frente. Além, claro, de acalmar a irrational exuberance do mercado de ações centrado em Wall Street. Faminto de ração suplementar de dólares e endividado em moeda americana, ao Brasil nunca interessa qualquer elevação da taxa monitorada pelo Open Market Committee do BC americano, o Federal Reserve presidido por Alan Greenspan.
Por que aumentar os juros nos Estados Unidos? Porque a inflação movida a gasolina acaba de registrar um choque de oferta, o do petróleo importado. O índice de abril, esperado ao redor de 0,2%, fechou em 0,7%. O índice mensal mais alto desde fevereiro de 1990. No mês, os derivados de petróleo subiram 19% no varejo. Para uma nação vorazmente energívora, o caso é sério.
Choque de oferta? Tradicionalmente, o governo americano costuma expurgar do índice de inflação (levantado nos terminais do consumo) os efeitos de sazonalidades e acidentalidades. Ocorre que Alan Greenspan descarta o índice expurgado (que teria ficado perto de 0,4%) e brande o índice cheio de 0,7% para cevar a própria tese: é preciso desarmar a bomba-relógio de uma certa inflação de demanda que estaria amoitada no ventre da prosperidade americana de toda a década. O perigo mora menos no PIB anualizado de 4,1% ou no emprego quase pleno de 95,8% da força de trabalho. O risco maior está no aumento do salário real médio acima dos ganhos de produtividade da economia. Naquela base do se melhorar, estraga.
Ou será que não? Há quem jure, por todos os juros, que uma puxada na taxa básica, hoje, de 4,75% para 5,00% ou mesmo 5,25%, tem como objetivo não assumido desacelerar a abrasiva euforia da Bolsa de Nova York. Cujo Índice Dow Jones acaba de furar a barreira histórica (ou histérica) de 11.111 pontos. A recarga meramente acidental ou friccional da inflação americana não passaria de um pretexto sob medida. Esperado por Greenspan desde meados do ano passado.
Secos & Molhados
Viés de baixa
-No Brasil convalescente, a taxa básica Selic está instalada no chamado viés de baixa. Baixa em seis suaves cortes, desde o pico de 45% escalado pelo choque cambial de janeiro. Na quinta-feira, declinou de 29,5% para 27%. Que tal 24%, amanhã?
Revés de baixa
-Com a ducha fria de sexta-feira, em Washington, há quem entenda como temerária uma nova redução da Selic. Tanto mais, assim, em três pontos porcentuais. Ficaria de bom tamanho um piso de 26,26%, se o Fed levantar hoje a taxa dele.
Atrelamento
-Infelizmente, os juros no Brasil estão atrelados, em certa medida, aos juros americanos. Tributo que pagamos ao déficit externo em conta corrente (subproduto do déficit interno).
E a gordura?
-Com inflação mensal outra vez perto de zero, estão recriadas as condições concretas para a redução dos juros de base e de ponta no Brasil. Até porque o que não falta é gordura para queimar na cunha fiscal do governo e no spread geral do sistema.





