Joelmir Beting
O ajuste maior
Nada de novo na frente ocidental lusitana. O ajuste no câmbio, condição de mercado, abre espaço técnico e político para o ajuste no crédito, decisão de governo. A taxa básica, Selic para os do ninho, rebaixada para 27% anteontem, pode contentar-se com 24% já na próxima quarta-feira, reunião do Copom.
Inflação zero (0,03%) em abril, a do IGP-DI/FGV, respalda o exercício do viés de baixa dos juros de base. Isso encoraja a redução orquestrada também dos juros de ponta - os do crédito bancário (e não-bancário) para investimento, produção, giro e consumo.
Em programas de estabilização, o controle da inflação é o fator condicionante. Tudo o mais faz a baciada dos fatores condicionados. Com inflação indexada e enlouquecida, não dá para ajustar a política cambial nem a política monetária. E o que dizer da política fiscal, com déficit mascarado pelo ganho inflacionário?
A bolha inflacionária (mas não inflacionista) do choque cambial já está furada pela lógica intrínseca do Plano Real. Com a rápida passagem do estado de choque para o processo de ajuste no câmbio de mercado (caçapa cantada pela coluna na primeira semana de fevereiro, então com dólar acima de R$ 2,00), estão criadas as condições concretas e objetivas para o ajuste da política monetária.
E mais: a queda dos juros, na direção de uma taxa básica real de 10% ainda este ano (para uma inflação gregoriana de 5%), alivia a pressão financeira sobre as contas públicas, acelerando a carpintaria do ajuste fiscal, prioridade nacional. Juros absurdos e asininos deram com os burros e as antas nágua. Já não era mais o déficit que provocava a dívida. Era a dívida que realimentava o déficit.
Outra grande pedida. Desta feita, ao contrário das ondas anteriores, a redução dos juros na base se faz acompanhar igualmente da redução dos juros na ponta. Nos cinco maiores bancos de varejo, que financiam giro e consumo, a queda média das taxas, em duas semanas, foi maior que a queda da própria Selic. Esta havia caído, até terça-feira, de 34,5% para 29,5%. O equivalente a uma redução de 14,5%. A taxa média dos bancos, no período, recuou 29%. No crédito pessoal, queda ainda maior, de 39,6% (de 7,9% ao mês para 5,5%).
Havia muita gordura nessas taxas bancárias de ponta. Como engorduradas, no limite da agiotagem e da usura, continuam as taxas de crediário de certas lojas. Elas vendem crédito disfarçado de produto a prestamistas de baixa renda. Consumidores sem alternativa, sem informação, sem assistência. Taxas ainda hoje de 9% ao mês, segundo pesquisa mensal da Anefac. Motor de ignição na inadimplência.
Inadimplência que as mesmas lojas tomam como causa e não como efeito dos juros de Drácula. Elas juram, por todos os juros, que a febre é a causa da infecção.
Secos & Molhados
Retomada
- Crédito maior, a custos e juros menores, é o melhor atalho para a retomada do consumo, da produção e do emprego. O crédito bancário ainda mal passa de 30% do PIB, contra a média mundial de 80%. Arrocho é apelido.
Ainda sobra
- Monetaristas enrustidos dizem que o arrocho monetário é balela: sobra dinheiro nos bancos. Claro, cara-pálida! Quem topa pagar 60% ao ano do desconto de uma humilde duplicata? Ou pagar 26% ao ano para produzir alimentos?
Irrigação
- A ampliação do crédito para o padrão mundial passa pela redução dos recolhimentos compulsórios (confiscatórios). E a inflação de demanda? Ela seria espancada pela verdadeira âncora do Real - o tripé desindexação/competição/modernização.
Cunha fiscal
- Os juros podem ser cortados pela metade (ou mais). Basta reduzir a cunha fiscal de 58,2% amoitada na taxa final. A perda de receita seria largamente compensada pela expansão da mesma receita na reativação geral da economia.





