‘‘Não há excesso de otimismo, agora. O que houve foi excesso de pessimismo, antes.’’
Juliano Bastide, sociólogo

‘‘Desculpem nossa falha!’’
Entre surpreendidos e estarrecidos, economistas, consultores, empresários e sindicalistas refazem previsões para o desempenho da economia brasileira em 1999. Entre dois suspiros de espanto, 97,4% dos cenaristas admitem, candidamente, que a chutometria da catástrofe nacional, por eles trombeteada nos primeiros 40 dias e 40 noites da desvalorização do real, não deu liga nem vai colar.
O Brasil continua maior que o abismo. O choque entrega a rapadura ao ajuste. Os mais céticos do pelotão dos constrangidos admitem que ‘‘o Brasil ainda não melhorou, mas já parou de piorar’’. Em janeiro e fevereiro, com ‘‘overshooting’’ cambial de até 80%, as cartomantes recheadas de álgebra projetaram para todo o ano o estado de choque de fevereiro, ignorando o processo de ajuste que se seguiria fatalmente ao choque. Por lei de física aplicada.
Projeções pessimistas são levadas a sério. Cenários otimistas são rechaçados na galhofa. Uma certa mídia coisa-preta, com síndrome de mídia chapa-branca, estimula a produção e a difusão de prognósticos do Juízo Final. Uma sinistrose orquestrada que acaba impactando as expectativas dos agentes econômicos na direção da retranca e da letargia. Ou como ensina Robert Lucas, Prêmio Nobel de Economia e principal teórico da escola das expectativas racionais: ‘‘Aqueles que pintam a crise mais feia do que ela já é estão contribuindo, propositadamente, para o agravamento dela.’’
Sem mistério. Nas expectativas econômicas de governos, de empresas, de mercados, de famílias, o otimismo não funciona, nada melhora. Certo? O problema é que o pessimismo funciona, tudo piora. Quantos negócios foram cancelados? Quantos contratos foram interrompidos? Quantos projetos foram engavetados? E quantas pessoas perderam o emprego ou deixaram de arrumar emprego por causa dessa ‘‘consultoria’’ catastrofista? Governos perderam receitas, empresas perderam mercados e pessoas perderam a paz e a saúde.
E fica tudo por isso mesmo. Até o FMI, na fala de Stanley Fischer, o segundo da hierarquia, diz agora em maio que ‘‘subestimamos a capacidade de reação da economia brasileira’’. O próprio governo brasileiro, com complexo de ‘‘realismo responsável’’, embarcou no cantochão do Juízo Final, dosando purgativos monetários e fiscais dignos de estados terminais de anorexia econômica explícita.
E ainda temos de aguentar, do lado de fora, o ‘‘desculpem a nossa falha’’ de um Paul Krugman, de um Jeffrey Sachs e de um Rudiger Dornbusch - a trinca de ouro da bola de cristal, agora admitindo que o Brasil, in facto, não é o México, não é a Indonésia, não é a Rússia. Eles se confessam igualmente ‘‘estarrecidos’’ com a recuperação brasileira. Mas não baixam o dedo em riste: ‘‘Cuidado! A batalha do câmbio está ganha. Mas a guerra do déficit ainda não!’’


Secos & Molhados
Inflação
- Os constrangidos de hoje projetaram para este ano um IPC acima de 20%. Em março, a Businessweek não deixou por menos de 50%. Agora, a FGV contenta-se com 8%, a Fipe já estima 6% e o Dieese admite nada além de 3% - de janeiro a dezembro.
Âncora?
- Os mesmos analistas que pintaram o fim do mundo para o Brasil 99 passaram quatro anos e sete meses atribuindo o fim da inflação do real a uma pajelança chamada âncora cambial. Acabou a âncora cambial e a inflação não explodiu. Estão embasbacados.
Recessão
- Em fevereiro, um Solimões de tinta preta vendeu aos brasileiros o peixe podre de uma recessão de 6% em 1999, a maior do século. Agora, as mesmas cassandras engravatadas chutam que ela não deve passar de um terço disso. O que vão dizer em julho?
E os juros?
- A evolução dos juros é menos uma condição de mercado e mais uma decisão de governo. O ministro Pedro Malan já fala em taxa básica real abaixo de 10% ao ano antes do Natal.

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