Joelmir Beting
O fumante brasileiro fuma imposto disfarçado de tabaco. E o pobre é justamente o brasileiro que mais fuma. Cigarro é lazer de pobre.
Juliano Bastide, sociólogo
O fumo é forte
Ano passado, compradores de carros novos pagaram R$ 875 milhões em IPI. Os fumantes brasileiros, no mesmo tributo, queimaram R$ 2,6 bilhões. O imposto da produção industrial responde por 41,25% do valor do maço de cigarros. Outros tributos e encargos espetados no bolso do fumante elevam essa extração fiscal para 83% do preço final. Um recorde mundial.
De mentirinha, governos de meio mundo obrigam-se a restringir o consumo de tabaco. No fundo, torcem pela manutenção da festiva receita tributária de caráter punitivo sacada diretamente do fabricante. Que cuida de repassar o tranco para o distribuidor, que transfere o coice para o consumidor.
O cerco ao fumante já virou caça de raposa inglesa. Descobriu-se que o cigarro não faz mal ao fumante. Tanto não faz, que a fabricação dele é permitida, para não dizer incentivada. O que faz mal ao pulmão, ao estômago e ao coração da gente é a propaganda do cigarro. Esta, sim, imolada hoje na televisão de 47 países. E o que dizer da proibição do cigarro em ambientes fechados, públicos e privados?
O problema é que o mercado, em escala global, continua em expansão tranquila. Declina o consumo na classe média? Pois cresce o consumo na classe pobre. E expande-se o mercado afluente do Leste Europeu, do Sudeste Asiático, da América Latina e da África Negra. Os homens estão fumando menos? As mulheres deram de fumar mais. Freud explica?
Convertido, ostensivamente, em cidadão de segunda classe, o fumante só falta ser apedrejado em praça pública. Fabricantes americanos da gororoba bioquímica passaram a ser retaliados na Justiça com indenizações individuais ou familiares de dezenas de milhões de dólares. Essa moda tende a espalhar-se pela advocacia universal.
Enquanto isso, a americana Philip Morris, maior do mundo, fatura US$ 37 bilhões por ano (na divisão de cigarros). Sua marca de ponta, a Malboro, vale US$ 51 bilhões. Mais que a da Coca-Cola, Sony, IBM, Ford, Xerox ou Gillette. Ano passado, limpou um lucro de US$ 5,4 bilhões. Maior que o da Microsoft (US$ 4,5 bilhões) ou o da General Motors (US$ 2,9 bilhões). Assim fica difícil emplacar a campanha institucional da Associação Médica Americana. Ela insiste em pedir aos investidores que se desfaçam de suas ações de fabricantes de cigarros. O mote ou o bote: Esse capital não é limpo.
A indústria do fumo movimenta no mundo US$ 78 bilhões por ano. Ela recicla a dependência de 1,5 bilhão de fumantes. Um terráqueo em cada quatro. Eles fumam 16 bilhões de cigarros por dia. O pessoal do ramo diz que o negócio do fumo navega em estatísticas e resfolega em paradoxos. Certo. Haverá algo mais paradoxal que o bicho homem?
Quem fuma
- Cerca de 36 milhões de brasileiros fumaram 136 bilhões de cigarros no ano passado. Outros 65 bilhões de cigarros são exportados para mais de 60 países. As vendas externas de fumo e cigarro superam, em valor, as do suco de laranja.
Quem frauda
- A carga fiscal extorsiva faz do cigarro o rei do contrabando universal. No Brasil, a coisa passa de US$ 1 bilhão por ano. Na maioria, cigarros brasileiros reinternados via Paraguai.
Quem faz
- O cultivo do fumo empenha 135 mil famílias no Rio Grande do Sul, com sobras para Santa Catarina e Bahia. Nas lavouras, nas fábricas, na distribuição e em mais de 260 mil pontos- de-venda, o cigarro emprega hoje 980 mil brasileiros.
Quem sofre
- O Ministério da Saúde estima em 85 mil por ano o número de pessoas que morrem por doenças provocadas (ou agravadas) pelo fumo. E a Organização Mundial da Saúde vai fundo: o cigarro mata quatro pessoas por minuto em todo o mundo.





