Joelmir Beting
Dizem que sou um tecnófobo leviano. Não sou contra a tecnologia. Eu sou contra a unanimidade tecnológica.
Jeremy Rifkin, economista americano
Geléia com pimenta
Alimentos fortificados e alimentos transgênicos. No painel da manhã, a proposta de enriquecimento do arroz, do leite e das farinhas de trigo, milho e mandioca com adições industriais de iodo, ferro e vitamina A (carências nutricionais de metade da população brasileira). No painel da tarde, a discussão da estréia (ou não), entre nós, dos alimentos geneticamente modificados, os transgênicos.
Eis o prato suculento do dia no 2º Seminário sobre Qualidade de Alimentos nesta sexta-feira, em São Paulo. Promovido pela Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), o encontro dos peritos do ramo debateu, na rodada de ontem, os sistemas de segurança alimentar, os alimentos funcionais ou nutracêuticos, as tendências da tecnologia de alimentos, os acertos e os desacertos da inspeção sanitária e a reforma institucional do Ministério da Agricultura.
A indústria de produtos alimentares, que faturou diretamente R$ 83 bilhões no ano passado, está de olho gordo no advento dos alimentos nutracênicos e dos alimentos transgênicos. Os primeiros, também chamados de alimentos funcionais, resultam da identificação de propriedades nutricionais de certos alimentos que podem ajudar na prevenção e no tratamento de doenças. De gripes a cardiopatias, de diabetes a dermatites, de depressão a reumatismo.
Os transgênicos, na ordem do dia, ainda estão longe da unanimidade científica e da viabilidade comercial. A polêmica é universal. A manipulação genética de alimentos convencionais (grãos, verduras, legumes e frutas) separa o assunto em dois campos opostos. O lado da produção festeja a redução dos custos, o aumento da competividade e a expansão do consumo ou do mercado.
O lado do consumo questiona a introdução prematura dos transgênicos. Ainda não se teria garantia completa, comprovada, de que tais manipulações de laboratório não oferecem riscos à saúde humana (e animal) e ao meio ambiente. Daí as restrições costuradas hoje em bloco pela União Européia para o cultivo e o consumo de transgênicos.
Transgênicos são alimentos convencionais que têm seu material genético alterado por meio da introdução de genes que os tornam tolerantes a agrotóxicos, resistentes a pragas e secas e portadores de agregados de valor nutricional ou mesmo medicinal. Há uma segunda vertente de transgênicos para uso industrial. Por exemplo: tecidos sintéticos e produtos plásticos a partir do milho transgênico.
Os gigantes da indústria química, que investem bilhões de dólares no front tecnológico da engenharia genética, estimam que os transgênicos dominarão a agricultura mundial até o ano 2010. Os cabeças dessa arrancada são as americanas Monsanto e DuPont e as européias Agrevo (Hoescht) e Novartis (Ciba-Geigy). Estados Unidos, Canadá, Argentina e China são, até aqui, os mercados pioneiros na incorporação desinibida da nova tecnologia.
Secos & Molhados
Sem posição
- O Brasil ainda não se definiu sobre os transgênicos. Mas queima pestanas no assunto desde que foi instalada, em 1995, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança.
Na berlinda
- Temos experimentos de campo com transgênicos na soja, milho, arroz e algodão. Monsanto, Novartis e Agrevo esperam o sinal verde já para a próxima safra do Centro-Sul. O governo gaúcho já se decidiu: transgênicos, por enquanto, não.
Transparência
- Marcos Sawaya Jank, pesquisador da Esalq/USP, lembra que o consumidor tem o direito de ser informado sobre o alimento que consome. Essa rotulagem exige regras e mecanismos de certificação e rastreabilidade de cadeias de produtos - num Brasil ainda deficiente em classificação e armazenagem de grãos.
Moratória
- Pelo sim, pelo não, tramita no Senado projeto que dispõe sobre moratória de cinco anos para o cultivo comercial de transgênicos no País. Iniciativa da senadora Marina Silva (PT-AC).





