‘‘Se o governo nada perde e a economia tudo ganha, por que não renovar o acordo automotivo?’’
Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical

Quem teme, perde
Sem a renovação do acordo de redução de impostos (e de manutenção de preços e de empregos), as tabelas de fábrica poderão ser remarcadas em até 20%. Metade, por causa do aumento dos impostos rebaixados pelo acordo finito. Metade, por obra do repasse de custos cambiais de peças e componentes importados.
Nos cálculos de peritos do ramo, um aumento de 20% nos preços praticados até ontem resultará, fatalmente, em queda de 40% nas vendas do mercado interno. Elas totalizaram 2 milhões de unidades em 1997 e despencaram para 1,5 milhão no ano passado. Este ano, se prorrogado o acordo de março e abril, o mercado absorverá 1,3 milhão. Sem a renovação do acordo, desabará para menos de 800 mil. Com mais 50 mil demissões na cadeia produtiva.
As montadoras sustentam que o câmbio livre não estava no programa. A correção cambial de 35% elevou os custos dos suprimentos importados. A substituição dessas importações exige algo mais que tempo: exige a certeza da manutenção das regras do jogo. O que passa pela segurança jurídica dos contratos. O Brasil, caso agora do Rio Grande do Sul, ainda cultiva a rançosa cultura política de descumprir acordos de governos em cada substituição de governantes.
Uma queda adicional de até 40% nas vendas de carros novos - para um mercado já desaquecido - resultará em perda de negócios, de empregos e de impostos. Uma perda produzida por negociadores canhestros que se deixaram arrastar pelo impasse em nome exatamente da proteção dos impostos, dos empregos e dos negócios.
A questão de fundo é de caráter fiscal. A carga tributária do automóvel brasileiro está bem acima da capacidade contributiva do consumidor. Um desvio de rota que começou nas poeiras do Plano Cruzado e que prossegue na visão meramente (con)fiscalista que certos burocratas planaltinos espetam no lombo do setor produtivo. Em especial, dos automóveis.
A atrofia do mercado de carros novos concede aos (con)fiscalistas de plantão o troféu Asno de Ouro. Ao invés de tributar menos sobre cada vez mais, estão tributando mais sobre cada vez menos. Ou será apenas pelos belos olhos das montadoras, que se perfilam entre as 20 maiores corporações industriais do século, que o mundo inteiro concede aos automóveis um tratamento tributário diferenciado e favorecido?
A verdade é que tanto na política tributária como na política monetária (e, até 15 de janeiro, na política cambial), o mercado brasileiro de bens e serviços em geral vem emitindo claros sinais de anorexia econômica. De tanto fazer regime de emagrecimento, a economia começa a sentir repulsão por comida. No caso, por investimento, produção, consumo e emprego.

Secos & Molhados
Carga bruta
- Em impostos diretos, o automóvel carrega uma extração fiscal de 33,8%. Juntados com os indiretos, a carga bruta salta para 44,2%. Na Argentina, parceira do Mercosul, a carga bruta é mansa: 17,4%.
Sem crédito
- No mundo todo, o mercado de carros novos tem no crédito ao consumidor a cobertura de 80% das vendas totais. No Brasil, menos de 30%. E com juros draculianos.
Sem tutano
- Espremido nos impostos e esfolado nos juros, o mercado de carros novos (com sobras para os usados) engatou marcha à ré. Chegou a ser o oitavo do mundo. Agora, é o décimo segundo.
Para fora
- As montadoras de automóveis passaram de quatro para nove em três anos. Elas realizam investimentos de US$ 19 bilhões em cinco anos. Não devem estar apostando tudo isso no mercado interno ainda sem juízo. Elas botam fé no mercado global a partir do Brasil. Só pode ser isso.

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