‘‘O mercado é uma invenção humana e não uma criação divina. Ele falha. Mas falha menos que outra invenção humana - o governo.’’
Robert Reich, economista americano

Em busca do prumo
A bordo de 37 milhões de toneladas, a nova safra de cana do Centro-Sul entra agora no mercado encarando uma sinuca de bico: a) se ela correr para o álcool, o produto encalha; 2) se ela ficar no açúcar, a cotação despenca. Pela primeira vez, em tantos anos de atribulada carreira da agroindústria canavieira, o início da colheita é recepcionado com protestos, passeatas e manifestos nos 241 municípios canavieiros de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
O sufoco maior é o do álcool carburante. A nova safra é destilada sobre um encalhe de 2,1 bilhões de litros da safra passada. A pressão de oferta no mercado interno, agora desregulamentado, evapora a rentabilidade da cadeia produtiva. Na média paulista, o custo de produção por litro é de R$ 0,31 na destilaria. Para remunerar os elos da cadeia, o consumidor final do álcool hidratado (o do motor sem gasolina) deveria estar pagando, na bomba da esquina, perto de R$ 0,60. Pois há postos no eixo Rio-São Paulo-Brasília contentando-se com apenas R$ 0,33. A gasolina não tem saído por menos de R$ 1,00.
Com produtores no vermelho, o Proálcool tem de escolher entre três saídas para o impasse atual: 1) reduzir o plantio de cana, saída para baixo e para trás; 2) apostar o último fôlego na reativação do carro a álcool, saída para a frente e para o alto; 3) desengavetar planos de governo que ficaram na promessa.
Superintendente da União da Agroindústria Canavieira (Única), Caio Carvalho diz à coluna que o elástico da produtividade já foi devidamente puxado na cana, no álcool e no açúcar. Na maioria das usinas e destilarias de São Paulo, a mecanização da lavoura canavieira acaba de eliminar, em dois anos, 170 mil lugares de trabalho. Ou perto de 25% da mão-de-obra da safra 1995/96
A reativação do carro a álcool é apoiada pela Volkswagen, que jamais tirou essa opção de linha. O interesse do consumidor rebrotou este ano - até por causa do aviltamento do preço na bomba. Já há filas de 90 dias em concessionárias VW do interior. A montadora informa que o gargalo da oferta está, agora, no suprimento de peças do carro a álcool. E na indiferença das outras montadoras.
O que não falta é uma baciada de propostas para o relançamento do Proálcool: 1) estímulos fiscais para o automóvel e o combustível; 2) frotas cativas para o carro a álcool, começando pelos táxis; 3) introdução do álcool anidro também no óleo diesel; 4) renovação incentivada da frota com mais de 15 anos de uso; 5) exportação dos excedentes do álcool hidratado. Num Brasil que volta a importar gasolina com chumbo tetraetila. Ou que prefere o aditivo MTBE na mistura carburante da frota gaúcha.


Secos & molhados
Renovação 1
-A frota movida a álcool totaliza, hoje, 3,9 milhões de veículos. Com idade média de 12,6 anos. Quatro em cada cinco veículos têm mais de dez anos. Essa faixa terá preferência no programa de renovação incentivada, ainda em exame.
Renovação 2
-A proposta da Única puxa a sardinha para as suas brasas: no primeiro ano do programa, seriam beneficiados, exclusivamente, os carros a álcool. Apenas 14% dos veículos a gasolina têm mais de dez anos de uso.
Renovação 3
-O emprego é a motivação maior do programa de renovação da frota. Assim sendo, a Única informa que a produção de cada 1 milhão de litros emprega por ano 0,6 trabalhador na gasolina e 38,1 trabalhadores no álcool.
Renovação 4
-Vice-presidente da Volkswagen, Miguel Jorge diz que haveria mercado anual para meio milhão de carros a álcool na soma da renovação incentivada com frotas cativas para táxis, locação e setor público. Além da opção do público em geral.

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