‘‘O Brasil de hoje é o Montesquieu desmoralizado. O Judiciário executa. O Executivo legisla. E o Legislativo julga.’’ Carlos Chagas, jornalista

Uma crise ética
Ou a ética em crise. Ética nos governos, ética nos negócios, ética nas profissões. Prefiro resumir o problema de uma angulação ainda mais abrangente: a Tecnologia é aética por natureza, a Economia é aética por necessidade e a Política é aética por conveniência.
Eis o pano de fundo do 1º Fórum Federasul de Ética, encerrado
ontem, em Porto Alegre. Realização da Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul (Federasul). Onde pintou a proposta de ‘‘um pacto ético das elites para consertar o Brasil’’, assinada pelo professor da USP e consultor de empresas Nelson Barrizzelli. Elites políticas, empresariais, acadêmicas, corporativas e sindicais.
Exposição de motivos para o ‘‘pacto ético de salvação nacional’’
é a rebrota atual do escandalômetro verde-amarelo de espanto. Que culmina com o julgamento do Judiciário pelo Legislativo - este com rabo preso naquele. O painel sobre Ética Empresarial fechou com a nota 5, padrão médio, para o nível ético do empresariado brasileiro.
Com a ressalva da maioria dos palestrantes e debatedores, a ética sofrível dos negócios e a ética abrasiva das relações do setor privado com o setor público estão sob questionamento em meio mundo. Começando hoje pela heráldica União Européia - cujo Poder Executivo acaba de destituir todos os seus membros, em bloco, por denúncias comprovadas de corrupção e nepotismo.
Certo. A falta de ética, fermento da corrupção, é uma doença universal. O que não é universal é a impunidade dos corruptos, dos corrompidos e dos corruptores. Nas hostes do Legislativo made in Brazil, a impunidade vai mais longe: virou impunibilidade. Em certos casos, é simplesmente proibido punir, sob a pusilanimidade que agasalha o dispositivo constitucional da imunidade parlamentar. Que, no dizer de Chico Anisio, está mais para ‘‘imunidade para lamentar’’.
A preocupação coletiva com a ética nos afazeres públicos e nos negócios privados não é invenção deste fim de milênio. Ela remonta aos tempos medievais. É o que demonstra, em livro, o acadêmico americano David Vogel, professor de Administração de Empresas da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O autor de Ethics and Profits reconhece, porém, que nunca a sociedade esteve tão ligada na patrulha dessa matéria como nestes últimos 15 anos. E nunca as empresas dedicaram tamanha atenção ao assunto como nesta segunda metade dos anos 90.
A questão ambiental teria sido, segundo David Vogel, o motor de ignição da ética empresarial. Que hoje se derrama para as relações sociais mais amplas com a comunidade, os trabalhadores, os fornecedores, os distribuidores e, fechando a roda, os consumidores. Algo na linha do que apregoavam, no passado, cientistas sociais do porte de May Weber Kenneth Boulding, Thorstein Veblen, Leonad Silk ou Albert Hirschman.


Secos & Molhados
Caso único
- Pelo sim, pelo não, o Brasil é caso único na literatura política dos povos: o único que botou no olho da rua um chefe de Estado por caso passado de corrupção. Único ‘‘impeachment’’ até agora no mundo. Lá fora, os ligeirinhos preferem renunciar.
Sem saída
- No limbo da ponte público/privado, São Paulo desfila pela Internet a existência do propinódromo municipal. Com o suspiro de José Maria de Jesus, camelô encalacrado: ‘‘No comércio formal, a gente paga impostos. No informal, proprinas.’’
Dá lucro
- A empresa 100% ética acaba faturando isso, disse em Porto Alegre o principal palestrante estrangeiro, George Enderle, da International Society of Business, Economics and Ethics.
Elo perdido
- Enderle e Martens deram nota zero ao padrão ético da economia russa fora de esquadro. Onde o mercado recém-nascido virou o ovo de serpente: o da máfia. Cujo maior refém é o governo.

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