‘‘Fazer previsões econômicas é um exercício
profissionalmente arriscado. É que ainda não se inventou o vírus da amnésia coletiva.’’
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista.

O dito pelo não dito
Reversão da crise global. Reversão da crise brasileira. Quem entra agora em parafuso é o dedo em riste dos cenaristas da catástrofe. Onde estão as análises do fim do mundo destiladas entre o Natal e o carnaval da perplexidade nacional? Elas estão devidamente armazenadas em meu computador, com a ficha dos respectivos autores. Que são grandes bancos, grandes fundos, grandes escolas, grandes empresas, grandes consultorias, grandes formadores de opinião. Devidamente cortejados pela mídia da qual faço parte.
Dizem que é a da própria essência do jornalismo a predileção pela cobertura dos acidentes da vida, dos fracassos do homem e dos fiascos da civilização. O jornalismo econômico eleva isso ao cubo, fazendo da mídia coisa-preta uma espécie de retaliação contra a mídia chapa-branca. Ou como se diz no anedotário da profissão: a ordem é separar o joio do trigo e publicar o joio.
Consultores e economistas, que atuam como cenaristas por dever de ofício, igualmente não escondem sua vocação para a usinagem de prognósticos pessimistas, chamados de realistas. São projeções técnicas com duplo resseguro: 1) se o cenário sinistro se confirma (até por indução da projeção pessimista), os autores dele estão profissionalmente consagrados e os respectivos clientes devidamente alertados e protegidos; 2) se o piorômetro nega fogo, chutado pelos fatos, as cassandras recheadas de álgebra lavam as mãos, na linha do que observou outro dia, nesta coluna, o professor Lawrence Klein, Prêmio Nobel de Economia: ‘‘É porque tomaram providências com base em nossas advertências.’’ Caso do professor teuto-americano Rudiger Dornbusch, metralhadora giratória do MIT. Ele dizia que o Plano Real não passava de uma ficção cambial. Era só cortar a corrente enferrujada da âncora cambial (pondo fim a uma sobrevalorização do real de até 40%, jurava ele) que o programa de estabilização (dos preços) iria pelos ares num piparote, da noite para o dia.
E agora, José? A âncora cambial acabou e o real vai dando a volta por cima da bolha inflacionária (mas não inflacionista) do dólar em liberdade. Durante os primeiros 40 dias e 40 noites do dilúvio cambial (o do choque antes do ajuste), os catastrofistas da análise econômica voltaram a faturar o marketing do pânico coletivo. Eles simplesmente projetaram para todo o ano o choque cambial e não o ajuste que se seguiria ao choque - que por definição é transitório.
Constrangidos, os cenaristas da sinistrose tentam explicar-se pelo atalho da ‘‘surpresa geral’’. E aproveitam o embalo para a advertência a caráter: ‘‘Cuidado com o otimismo excessivo!’’ Nada disso. Não se trata, agora, de otimismo excessivo. E, sim, antes, de pessimismo excessivo. O deles.


Secos & Molhados
Sem âncora
- Acabou a âncora cambial? Como explicar a inflação de meio por cento agora em abril, a da Fipe? Ou a inflação anual de um dígito, com implosão do câmbio em janeiro? Afinal, havia ou não havia âncora cambial na estabilidade dos preços em reais?
Sem velório
- Certos analistas, que não sacaram até hoje a lógica do Plano Real, decretaram 13 sentenças de morte para o programa de estabilização, já com 58 meses de vitoriosa (e atribulada) carreira. Que, pelo jeito, tem fôlego de sete gatos.
Sem encalhe
- Sobra no ar uma explicação preguiçosa para a inflação na jaula, recessão. Ora, cadê a inflação na cesta básica, cujas vendas cresceram 65% desde julho de 1994?
Sem mistério
- Os fundamentos da estabilização permanecem intactos e ativos: 1) desindexação voluntária e progressiva de preços e contratos; 2) modernização da economia, reduzindo custos; 3) competição em marcha, travando preços.

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