‘‘Na ciência econômica, a sabedoria tem dúvidas. A ignorância tem certezas.’’
Gérard Lebrun, filósofo francês

Ainda temos túnel
PARIS - Ainda repercute na União Européia o bem-sucedido relançamento do risco Brasil no mercado financeiro internacional. O economista francês Jean-Claude Dahmer, da Bolsa de Paris, identifica na reabilitação brasileira um sinal concreto de que ‘‘a crise global é página virada na turbulenta decolagem do capitalismo neoliberal’’.
O megainvestidor George Soros, que é do ramo, diz em seminário que, ‘‘de susto em susto, o mercado financeiro desenvolveu rapidamente a capacidade de absorver e neutralizar choques isolados oriundos de mercados emergentes’’. O Brasil teria sido o último desses choques, com recuperação bem mais veloz e consistente que as do México, Tailândia, Indonésia, Coréia ou Rússia.
A ressalva é de Jean-Claude Dahmer: ‘‘Na faixa dos emergentes ainda resta um foco de preocupação: a deterioração da economia argentina desde o choque cambial desferido pelo Brasil. Seria a Argentina a derradeira bola da vez?’’ George Soros prefere ver o perigo sob os próprios pés: um ‘‘ajuste técnico’’, cada vez mais próximo, da Bolsa de Nova York. A tal de ‘‘irrational exuberance’’, denunciada por Alan Greenspan, em novembro de 1996, continua mais exuberante que nunca. Jean-Claude Dahmer também admite a possibilidade de um ‘‘crash’’ corretivo em Wall Street e dá números aos búfalos: a sobrevalorização do Dow-Jones estaria hoje entre 35% e 45%.
Ajuste técnico dessa magnitude seria uma ogiva de 10 megatons. O estoque das ações negociadas em Nova York está valendo perto de US$ 12 trilhões. Um tombo de 40% queimaria um patrimônio coletivo da ordem telúrica de US$ 4,8 trilhões! Uma riqueza fictícia, convertida em poeira radioativa. Ela daria a volta ao mundo pelos ventos quentes do mercado global. Com tremenda recessão nos Estados Unidos, locomotiva da economia mundial.
Fiquemos com a convalescença do Brasil varonil. Há clima favorável para um novo lançamento de títulos brasileiros no mercado internacional. O da semana passada, o do reencontro com o mercado mais arisco e escaldado da economia moderna, emplacou US$ 2 bilhões para uma demanda duas vezes maior. Jean-Claude Dahmer arrisca: ‘‘Se o Brasil lançar US$ 5 bilhões, agora em maio, a subscrição será total. E, certamente, com juros menores que os da vitoriosa emissão da semana passada.’’



Secos & Molhados
Não desiste
- Pela BBC de Londres (e pela Eldorado de São Paulo), o professor Rudiger Dornbusch, patrono ideológico da ‘‘máxi’ do real, ataca de novo: só a dolarização total pode salvar a sobrevida do real. No figurino do ‘‘currency board’’ da Argentina.
Faltou dizer
- Rudiger Dornbusch não disse que o câmbio fixo da Argentina, que completa oito anos em junho, está com vela na mão e padre na cabeceira. Aqui em Paris, fala-se que um ‘‘choque cambial’’ na Argentina pode ocorrer agora em maio.
Mão de gato
- Ou garra de águia? O Liberation diz que o discurso da dolarização, disfarçada de ‘‘currency board’’, acaba de ser oficialmente assumido pelo salão oval da Casa Branca. Com endereço da velha ‘‘área de influência’’: México, Argentina e Brasil, com sobras para Chile e Venezuela.
Moeda única
- Yes, o dólar seria a moeda única da América Latina...

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