Quem diria? Deu Paraguai no The New York Times. Com direito a um veneno: a democracia na América Latina está fazendo água por todos os furos. O que não é bom para tranquilizar os ‘‘mercados’’ nos dois lados do Atlântico Norte, já ouriçados com os apuros fiscais e cambiais do México, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Brasil.
Americanos e europeus sabem tanto do Paraguai como nós brasileiros sabemos do Azerbaijão. Como esta coluna transita pela Internet, aqui vai um retrato 3x4 da nação guarani. São 5,3 milhões de habitantes produzindo um PIB de US$ 10 bilhões. Do qual se extrai uma arrecadação tributária de US$ 1 bilhão. Apenas 10% do PIB, contra 31% aqui no Brasil. O Banco Central do Paraguai (BCP) coça a cabeça: a carga tributária é tanto mais irrisória quando se atenta para um PIB informal de US$ 12 bilhões, maior que o formal. O governo nada faz porque quase ninguém paga impostos e quase ninguém paga impostos porque o governo nada faz.
A dívida externa é de US$ 1,6 bilhão. As reservas internacionais não passam de US$ 650 milhões. O déficit da balança comercial acaba de totalizar US$ 1,2 bilhão em 12 meses. A desvalorização do real cortou pela metade as exportações para o Brasil - endereço de 40% das vendas externas do Paraguai.
Há que se dar um desconto a tais números. Assim como a estatística tributária não é confiável, a de comércio exterior é metafísica. O Paraguai é um entreposto de operações triangulares que dão carona a esquemas ostensivos de contrabando e pirataria. A única indústria nativa de peso é a da cadeia têxtil - que vai mal dos teares desde a invasão do made in Asia pelos desvãos do Mercosul.
Mercosul? O Paraguai não está a fim de encarar a competição intrabloco patrocinada pelo Tratado de Assunção. Nem está plugado no lado bom da globalização - a atração do capital externo produtivo. Estrangeiro que investe no Paraguai é empreendedor brasileiro. Sem contar meio milhão de brasiguaios que hoje lideram a produção nacional de carne bovina, soja, milho e café.
O Partido Colorado, há meio século no trono, acaba de perder, além do vice Luiz ArgaÀa (assassinado), o presidente Raúl Cubas (renunciado), testa-de-ferro do general Lino Oviedo (defenestrado). Mas não deve abrir mão do poder nas eleições presidenciais agora antecipadas para maio ou junho. O que significa dizer, tal como diria Lampedusa, que no Paraguai as coisas devem mudar para que permaneçam as mesmas. Um sistema de poder sem projeto nacional. Cujo partido quase único é controlado por militares. E cujas figuras mais travessas encerram carreira com título de senador vitalício. Não acima de qualquer suspeita, mas a salvo de qualquer processo. Raúl Cubas e Lino Oviedo devem ser os novos vitalícios.



SECOS & MOLHADOS
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