Será que vamos realmente emplacar até dezembro um superávit comercial de US$ 11 bilhões - a partir de um déficit de US$ 6,4 bilhões no ano passado? Para honrar essa intenção ajustada com o FMI, o Brasil terá de combinar, por exemplo, um avanço de 10% nas exportações com uma redução de 21% nas importações.
Para os economistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) nem as vendas externas crescerão assim em um décimo nem as compras lá fora serão enxugadas em um quinto. Para os técnicos da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a meta de US$ 11 bilhões só seria factível no horizonte dos próximos 12 meses (abril/março). O melhor que se pode pretender, para este ano, é um saldo de até US$ 7 bilhões.
Pelo lado das importações, aquele corte de 21% teria de passar pelo cadáver de uma recessão maior que a projetada - queda de até 5% do PIB verde-amarelo de susto. Ora, o mercado já aposta em uma taxa de equilíbrio para o câmbio ainda neste primeiro semestre. A cotação média de um dólar justo e certo estaria situada, hoje, ligeiramente abaixo de R$ 1,70. Nesse nível de desvalorização do real, o tombo das importações já ficaram menor que o previsto.
Um dólar de equilíbrio afastaria a neura do risco cambial sem tamanho para quem importa qualquer coisa. Com menor desvantagem no custo e maior segurança no risco, negócios de importação até aqui suspensos seriam retomados sem manchete. Até porque, na faixa das commodities, das matérias-primas e dos insumos industriais - dois terços da pauta importadora -, a redução tática e tópica do Imposto de Importação veste a camisa da neutralização da inflação de custos (cambiais). Lista de 80 produtos dessas categorias deve ser contemplada, até sexta-feira, com alíquota zero.
Em resumo: não se pode projetar para o prato das importações (assim como para o prato das exportações) o estado de choque cambial do primeiro trimestre, ignorando o regime de ajuste cambial a partir de maio ou junho. E mais: um câmbio de equilíbrio reverteria a expectativa inflacionária do mercado. Já se fala em IGP abaixo de 12% contra uma projeção de 16,8% no purgante do FMI. Uma inflação menor que a esperada resultaria em recessão igualmente menor que a projetada. Também por aí o efeito inibidor sobre as importações não seria tão devastador como se imaginava na crista do choque em fevereiro, quando o real chegou a acumular desvalorização de 77%.
Outro aspecto a ser considerado: ‘‘A substituição de importações pelo setor industrial exige tempo, dinheiro e confiança’’, lembra Sérgio Haberfeld, presidente da Associação Brasileira de Embalagem. A maturação dos projetos, diz ele, consome até quatro meses: ‘‘Trata- se de uma decisão sopesada, que não pode ser tomada em estado de choque. Ou seja: sem maior impacto na balança comercial deste ano.’’



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