Dentro da banda
O déficit da balança comercial brasileira, ano que vem, pode furar a barreira de US$ 10 bilhões. O dobro do escapamento deste ano. A estimativa é de Roberto Gianetti da Fonseca, vice-presidente da Fundação de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Esse tijolo quente vai ser jogado no encontro anual dos exportadores brasileiros, a partir de hoje, no Hotel Glória, no Rio.
Com presenças confirmadas dos ministros Pedro Malan, Francisco Dornelles e Felipe Lampreia, o auditório aguarda com calafrios a palavra de Gustavo Franco, diretor da área externa do Banco Central, também chamado de Mister Câmbio. E os exportadores não deixam por menos, parodiando Laerte Setúbal: no conceito do poder de compra das moedas ‘‘o atraso cambial é sempre de 30%’’. Sem o ajuste do câmbio, aquele déficit de US$ 10 bilhões já pode ser dado como inescapável.
Ocorre que nenhuma autoridade monetária pode insinuar qualquer mexida no câmbio ou mesmo no crédito ou nos juros. Sob pena de tumultuar a economia e fertilizar a especulação. Gustavo Franco não tem escapatória: vai deixar o auditório de nariz ainda mais torcido, martelando o samba de uma nota só. Ou seja: o câmbio está ajustado, de bom tamanho, dentro da banda que passa.
Patrocinadora do encontro anual, a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) agendou para hoje e amanhã algo mais que a cobrança de um ‘‘câmbio realista’’: 1) novo padrão de financiamento e de seguro de crédito à exportação; 2) novas políticas de promoção do comércio exterior; 3) anteprojeto de uma Lei de Comércio Exterior; 4) defesa comercial, subsídios, protecionismo e salva-guardas; 5) Mercosul e relações com blocos econômicos; 6) infra-estrutura de transportes e de telecomunicações; 7) descomplicação e desoneração do comércio exterior nas duas mãos; 8) vida, paixão e sorte do programa de estabilização da economia.
Diplomaticamente, o programa oficial não reserva nenhum espaço para a questão cambial. Gustavo Franco foi escalado para falar amanhã, às 11h30, sobre ‘‘Desenvolvimento e Comércio Exterior’’. Claro, contra o pano de fundo da globalização.SECOS & MOLHADOS

Pela banda
- Porque a oferta de dólares no mercado brasileiro é menor do que a procura, a banda cambial funciona como piso e não como teto da cotação diária do dólar. Ela foi inventada para não deixar o dólar despencar para menos de R$ 0,80.

Um desafio
- Certo ou errado? Presidente da AEB, Marcus Vinicius Pratini de Moraes pondera: a oferta é compulsória e a demanda é reprimida. O certo seria liberar, para o comércio exterior, a conta corrente em dólares no banco da esquina.

Um sufoco
- Vice-presidente da AEB, Luiz Fernando Furlan lembra que o déficit comercial não é um dado isolado. Há que se pensar na deterioração anunciada das contas externas. Só o serviço da dívida vai saltar para US$ 34 bilhões em 1997.

Duas mãos
- Estimativa oficial para o fechamento da balança comercial este ano: vendas de US$ 48 bilhões e compras de US$ 53 bilhões. Déficit de 5% do intercâmbio de US$ 101 bilhões. Não estamos importando muito. Estamos exportando pouco.

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