Joelmir Beting
A inflação anual de 16,8% embutida na bola de cristal do FMI está superestimada, na percepção do mercado financeiro. Até porque o governo pretende adotar o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) para efeito de acompanhamento da inflação. E o IPC teima em trafegar abaixo do Índice de Preços por Atacado (IPA), com peso 60 na ponderação do Índice Geral de Preços (IGP) da FGV. O IPA reflete os preços nas fábricas e fazendas e não nas lojas e quitandas. Em fevereiro, pico do choque inflacionário da liberação do câmbio, o IPA cravou 7% e o IPC não passou de 1,4%.
O detalhe: a maioria dos países adota o IPA como deflator do câmbio. O Banco Central ainda não justificou a opção pelo IPC nem esclareceu qual seria o IPC que passaria a informar a inflação negociada com o FMI. O IPC da FGV, que integra o IGP com peso 30, é apurado na cidade do Rio de Janeiro, mas vale para o Brasil inteiro. O IPC da Fipe é capturado na cidade de São Paulo e também não reflete o que se passa no restante do País. Ainda na ponta do consumo, temos o IPCA do IBGE e o ICV do Dieese.
Para março, a Fipe aposta em IPC de 1,2%, abaixo de 1,4% de fevereiro. Mas o Boletim Macroeconômico do Ministério da Fazenda, do dia 4, admitia para março um IPC/Fipe de até 2,2%, com recuo para 1,7% em abril. Para todo ano, o Boletim estima um IPC de 12%, no máximo.
Se assim estava prognosticado no dia 4, de onde terá saído aquela meta de 16,8% no acordo do dia 8? Será que se trabalhava antes com metas menores para a taxa de juros e a taxa de câmbio? Elas foram fixadas no acordo em 28,8% e R$ 1,70, respectivamente. O diretor de Política Econômica do Banco Central, Sérgio Werlang, diz que a idéia é jogar com o diferencial entre inflação esperada e inflação pretendida. Espécie de banda da inflação, como faz o banco da Inglaterra, pioneiro do estabelecimento (para monitoramento) de metas inflacionárias.
Metas inflacionárias ou metas inflacionistas? O risco dessa transparência solene com projeções de inflação é o de passar aos agentes econômicos ressabiados a idéia de que 16,8% seria a inflação mínima e não a inflação máxima. O movimento intestino de reindexação de preços e contratos já estaria tomando essa meta de 16,8% como indexador...
Preocupação já manifestada pelo presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Wagner Pimenta, em O Globo. Ele ponderou que se a inflação está oficialmente projetada para 16,8%, fica difícil segurar a reindexação salarial nos julgamentos de primeira instância dos tribunais regionais. Aí é que mora o perigo.
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