Joelmir Beting
Joelmir Beting
Não é com novos aumentos de juros e de impostos que haveremos de reverter o processo suicida de reindexação geral da economia
Gilberto Adrien, empresário rural.
O bonde da estagflação
A gastança pública irremovível volta a fazer dupla do barulho com a ganância privada rediviva. Em nome do (des)ajuste cambial para o alto e para a frente. Agentes econômicos ligeirinhos e irresponsáveis estão remarcando tabelas de preços com a gula de uma orca ártica. Não se trata de repasse de custos para preços. Trata-se simplesmente de aumento de lucros. Se é que sobrará mercado para preços desgarrados da lógica e lucros divorciados da vergonha.
Há quem veja no reajuste abusivo e abusado de preços uma certa conspiração revanchista contra quase cinco anos corridos de desindexação da economia. São empresários de meia-tigela que não sabem prosperar sem o doping dos ganhos inflacionários de tesouraria - especialmente dos que se acham montados em negócios servidos por compras a prazo e vendas à vista. Para eles, com cash-flow depositado de hora em hora do banco da esquina, a inflação é uma doce aliada e não uma feroz inimiga.
A ordem, pois, é tirar proveito da confusão mental desencadeada pelo choque cambial. A maioria da clientela começa a perder a noção dos preços relativos e, logo mais, a memória dos preços pagos. Sinal verde para a reindexação de preços e contratos - culpando-se o dólar sem juízo por todos os males do Brasil e do mundo. O câmbio, por definição, é o valor relativo de todos os preços do universo econômico. Quando o câmbio desajusta-se para baixo ou para cima, o mercado anota o preço de tudo sem saber o valor de nada.
O governo trapalhão colabora estrepitosamente para a farra atual da trinca do terror: especulação, reindexação, estagflação. Em nome da crise fiscal de sempre (e do choque cambial que agrava a crise fiscal), o governo reabastece a panacéia preferida - a dos juros no alto e em alta. Fica difícil explicar a José Maria de Jesus, cidadão fraudado, que subir ainda mais os juros é o único remédio disponível na farmacologia planaltina para esfriar a febre alta da carestia. Ele se pergunta: Será que juros que encarecem os custos financeiros da produção funcionam realmente como inibidores da inflação?
Dizem que juros de 11% ao mês no crediário de loja, com crédito ainda mais escasso para produção, giro e consumo, promovem a retração do mercado e o encalhe da produção. No encalhe, os preços param de subir e até começam a cair. Na Suíça. Aqui no Brasil, cultura da indexação ainda de plantão, recessão não derruba inflação. Lembram-se? Os preços do dia são remarcados pela inflação da véspera, vendendo ou não vendendo. Collor que o diga.
A recessão made in Brasília leva jeito de devolver o Brasil do Real para o pior dos mundos do Brasil do cruzeiro: a estagflação. Economia em baixa, carestia em alta. Reindexados até as orelhas, os empresários buscam recuperar na margem da unidade do produto o que imaginam estar perdendo na atrofia do volume da produção. É aí que mora o perigo da reindexação, a caminho da estagflação.
Secos & Molhados
Crioulo doido
- E o que dizer do reajuste sadomasoquista dos combustíveis? Os chantagistas do dólar acima de R$ 2,00 adoraram a dupla e dúbia manchete de ontem: Governo sobe juros para conter inflação e aumenta combustíveis em 11,5%.
Incompetência
- O governo errou até mesmo no ritual do aumento com aviso prévio. Por que anunciar o reajuste com uma semana de antecedência? Para encher o tanque da especulação com estoques?
Incongruência
- E quem foi que disse que a Petrobrás não podia esperar até abril ou maio? Por acaso os preços dos derivados foram rebaixados quando os preços do petróleo importado cairam pela metade no ano passado?
Viés para baixo
- E tome, doravante, a última pérola do economês verde-amarelo de susto: o viés para baixo. Um nebuloso mecanismo de redução dos juros monitorados pelo Banco Central. Única certeza: a economia real está no viés para baixo desde novembro de 1997.





