Em transe, o Plano Real entra hoje no segundo dia do sexto ano de vida, paixão e sorte. Ele veio a este vale de lágrimas em 1.º de março de 1994, com a introdução da Unidade Real de Valor (URV). Uma clonagem monetária genial e geniosa. Que pouca gente entendeu e que Itamar Franco chama ainda hoje de urve.
Até a implosão cambial de 15 de janeiro, o Plano Real realizou integralmente o objetivo primeiro, para não dizer o único: colocar na jaula da estabilidade dos preços a inflação indexada mais furiosa da floresta econômica dos povos. Uma inflação da variedade inercial (porque indexada). Ela havia desmoralizado, antes da estréia da URV, cinco congelamentos de preços e salários, um confisco de poupança privada nos bancos e dois ciclos de recessão inútil e desagradável nos triênios 1980/82 e 1990/92 - com desemprego recorde, sem manchete e sem passeata.
Em cinco anos de estabilização monitorada, o Plano Real obrou a façanha de fazer da inflação de um dia, antes dele, toda a inflação de um ano. O IGP/FGV de 1998 não passou de 1,7%. Com direito a deflação de 0,8% no IPC/Fipe do consumo paulistano. Até dezembro, era do Plano Real a menor inflação brasileira em mais de meio século. Ou desde o governo Gaspar Dutra.
E daí? Pouca gente aplaudiu a façanha. Houve até quem suspirasse pela volta da inflação ‘‘desenvolvimentista’’. A maioria dos especialistas simplesmente atribuiu ao sucesso do Plano Real a autoria do problema e distorções anteriores a ele. Caso do desemprego tecnológico ou estrutural, desencadeado pelos choques encavalados de competição nos mercados e de modernização nas empresas - desde a estagflação ‘‘collorida’’ de 1990/92. Caso do déficit público, destilado há décadas por um Estado brasileiro anacrônico, perdulário, ineficiente, iníquo e pusilânime.
Uma certa análise preguiçosa chegou a creditar a inflação perto de zero a um PIB igualmente perto de zero. Ora, se recessão derrubasse inflação, Collor, o Demolidor, teria acabado com ela. Se recessão derrubasse inflação, como explicar a deflação acumulada superior a 10% exatamente em mercados que dobraram de tamanho no Plano Real? Ou a inflação acumulada de apenas 19% em cinco anos de cesta básica - com seu consumo expandido em 74% no período? E mais: se recessão derrubasse inflação, por que essa onda agora de projetar, para este ano, uma inflação acima de 20% para uma recessão superior a 5%? Freud explica? Nem Friedman.
Simonsen explica: na concepção, o Plano Real acertou na mosca ao promover, com a clonagem monetária da URV (a Dolly do dólar), a desindexação voluntária e progressiva de todos os preços e contratos da economia mais indexada do mundo e da História. Mas, na execução, errou o alvo da estabilização sustentável (fator condicionante da retomada do crescimento econômico) ao falhar na dosagem da política cambial, da política monetária e da política fiscal.



Secos e Molhados
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