Joelmir Beting
A redistribuição de renda promovida pelo Plano Real aumentou o consumo interno também dos derivados do trigo. Um salto de 25%. O consumo por habitante subiu de 40 quilos por ano, em 1993, para 51 quilos no ano passado. O consumo total estava abaixo de 7 milhões de toneladas. Aproxima-se de 8,5 milhões.
Na Argentina, o consumo por habitante é de 130 quilos. Na Europa Ocidental, média de 160 quilos. Nos Estados Unidos, mal passa de 80 quilos. Seguinte: o americano continua plugado na culinária do milho, herdada dos nativos. O brasileiro afastou-se gradativamente do milho. Que não aguentou a concorrência do trigo importado, fortemente subsidiado. Hoje, o milho é mais consumido pelo frango e pelo porco do que pelo homem.
Para Antenor Barros Leal, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), o Brasil caminha para um consumo per capita de 100 quilos no horizonte de dez anos, já descontado, no período, o crescimento da população. Como a produção interna marca passo há duas décadas, o pão nosso de cada dia vai continuar amassado com trigo argentino, americano e canadense.
Este ano, a produção brasileira não deve passar de 2,9 milhões de toneladas. Na década passada, chegamos a produzir mais de 4 milhões. Estamos importando 6 milhões de toneladas por ano. Fatura de US$ 1 bilhão. A massa ameaçou azedar com a disparada das cotações no mercado internacional, no último inverno do hemisfério norte. Fomos salvos pela reversão das bolsas. Em junho, a tonelada valia, lá fora, US$ 320. Hoje, a Argentina está nos cobrando US$ 140.
O mercado brasileiro (e mundial) foi passado a limpo no 4º Seminário Internacional do Trigo, encerrado, ontem, no Sheraton, do Rio de Janeiro. Presença de empresários e consultores de 21 países. O mercado mundial movimenta 560 milhões de toneladas, envolvendo negócios de US$ 115 bilhões, este ano. O Brasil é o segundo maior importador do mundo, depois do planeta China.
Fabricantes de derivados do trigo, liderados pelo pão e pelo macarrão, fecham o ano com vendas totais de US$ 8 bilhões. A fatura cresceu mais pelo preço do que pelo volume. Para o ano que vem, com a reviravolta das cotações externas, a Abitrigo admite redução de 15% no custo final da farinha.SECOS & MOLHADOS
Sem cartório
- Trigo e farinha acabaram trocando o regime do cartório pelo ambiente do mercado. Antes, o Banco do Brasil exercia verdadeiro monopólio estatal na importação e na comercialização do trigo. Agora, o governo contenta-se em regular leilões para o trigo nacional.
Pão platino
- Presente no Sheraton, o secretário de Agricultura da Argentina, Felipe Solá, avisou ontem que teve início a colheita da maior safra de todos os tempos: perto de 15 milhões de toneladas. Um terço disso virá para o Brasil. Incluída a fatia crescente da farinha.
Competição
- A tal de abertura. Antes, o Brasil importava só o trigo. Agora, também a farinha e os derivados. Os moinhos brasileiros acusam o golpe e cuidam de ganhar produtividade - questão de vida ou morte. No trigo, o Custo Brasil é bem maior que o Custo Argentina.
Uma carroça
- Difícil está sendo ampliar o trigo brasileiro em quantidade e em qualidade. Nossas lavouras padecem da chamada obsolescência genética da semente. A cultura é uma carroça. Até o petróleo reage. O trigo, não. Tiragens modernas no cerradão apontam o caminho.





