Joelmir Beting
O Brasil não é o México, não é a Tailândia, não é a Indonésia, não é a Coréia, não é a Rússia. Aqui, existe incubado, no ventre da inflação ainda na jaula, o vírus da (re)indexação, que tem como clone o vírus da (re)dolarização. O professor Earp Sá já disse que o vírus da (re)indexação é do tamanho de um cachorro e morde. A mordida é infecciosa. Chama-se stagflation.
O que é isso? Economia mais indexada do mundo e da História, entre 1964 e 1994, o Brasil ainda não se livrou da memória da indexação automática e informal de preços e contratos em liberdade. Se não existe cultura da inflação, como quer Affonso Celso Pastore, existe cultura de reindexação amoitada numa inflação anual de dois dígitos. Afinal, a indexação permanece ativa no sistema financeiro e em contratos com prazos de um ano ou mais.
Logo, a rebrota da inflação nos escombros do atual estado de choque cambial não será contida por uma overdose de recessão purgativa, a golpes baixos de juros altos e impostos idem. Entre nós, a recessão casada com inflação empurrará a sociedade brasileira para o pior dos mundos: economia em baixa com carestia em alta. Recessão só derruba inflação em economias não indexadas e com as finanças públicas já devidamente ajustadas.
Lembram-se da recessão dita corretiva do triênio 1980/82? A inflação anual pulou de dois para três dígitos. Lembram-se da recessão patogênica do triênio 1990/92? A inflação anual pulou de três para quatro dígitos Ela nem se lixou com o congelamento de preços e com o confisco da poupança.
A nova escalada punitiva dos juros - que já estavam no alto da insanidade monetaróide - é espingarda de cano duplo: a) tentativa de estancar a debandada de dólares; b) tentativa de desencorajar a recarga da inflação, da (re)indexação e da (re)dolarização. No primeiro caso, a munição é de baixo impacto. O investidor está padecendo de síndrome de aversão ao risco. Ele substitui a rentabilidade pela liquidez e pela segurança. Como é sabido, juros no alto e em alta aumentam a dívida que financia o déficit que agrava o risco que inflaciona os juros...
No segundo caso, juros paroxísticos aprofundam a recessão e refertilizam a inflação reindexada. Isso aumentará a aflição dos aflitos: quedas de consumo, produção e emprego e ampliação do desajuste fiscal. O que faria da recessão purgativa e da flutuação cambial um expediente inútil, além de desagradável.
Secos & Molhados
Retrato 3 x 4
-Em reais, a dólar médio de dezembro, o PIB brasileiro deve ter fechado o ano ao redor de R$ 960 bilhões. A dívida pública interna, a mobiliária, totalizou 33% do PIB. Ou R$ 342,8 bilhões. Dos quais, R$ 213,5 bilhões em poder do público investidor.
Recessão
-Corremos o risco de trocar a recessão corretiva pela recessão patogênica. Nestas condições, o regime de emagrecimento econômico é a arte de prolongar a crise, tornando-a insuportável.
Etiologia
-Na (re)indexação, os agentes econômicos buscam compensar no aumento do preço da unidade do produto o que imaginam perder na redução do volume da produção ou das vendas. É aí que mora o perigo.
Mistério
-Antes, os juros subiam porque o câmbio estava preso. Agora, os juros sobem ainda mais porque o câmbio está solto.





