Joelmir Beting
Eis o tripé cambial do piorômetro nacional: 1) Itamar Franco decreta a moratória interna; 2) Celso Furtado defende a moratória externa; 3) discute-se abertamente a centralização do câmbio. Resultado: quem está fora, não entra, quem está dentro, cai fora. Nem a livre flutuação do câmbio, sob a metralha da crise fabricada em casa, consegue reverter a evasão defensiva de dólares. E o avanço do ajuste fiscal no Congresso continua esnobado pela mídia global. Não passou de nota de rodapé na página 28 do The Wall Street Journal.
Até mesmo a unificação dos mercados de taxas livres de câmbio (comercial e turismo), como manda a lógica da flutuação sem bandas, obtém como resposta um bocejo do tédio. Ela sinaliza ao mercado mais arisco do mundo que o Brasil não consegue estabilizar as taxas de câmbio porque não consegue, antes disso, estabilizar as regras do jogo.
Ou como diz o presidente mundial do BankBoston, o brasileiro Henrique Meirelles: O que preocupa o mercado é a ruptura das regras do jogo e não o ponto de equilíbrio do câmbio. Afinal, esse ponto de equilíbrio não passa hoje de uma ficção contábil para o dólar, para o euro, para o iene. E não deve ser diferente para o real. A proposta de centralização do câmbio não deixa de ser uma emenda cambial pior que o soneto da banda cambial. A simples discussão da idéia a céu aberto já basta para retardar ou mesmo impedir a reversão do fluxo cambial negativo. E não adianta o governo espancar a proposta em nota oficial. Alguém acredita em palavra de governo sobre matéria cambial?
Centralização do câmbio é catequese de Jim Jones, a do suicídio coletivo. Ela veste a camisa do piorômetro nacional. Centralização é entregar a meia dúzia de burocratas o controle leonino de todas as operações com moeda estrangeira - incluídas as remessas de juros, de lucros, de dividendos. Se a banda cambial não fazia o jogo do capital especulativo, o controle cambial não veste a camisa nem mesmo do capital produtivo. As múltis simplesmente interromperiam programas de investimentos que totalizam perto de US$ 20 bilhões por ano. Já imaginaram?
E o que dizer do crédito externo das empresas brasileiras? Elas devem lá fora dois terços de nossa dívida externa de US$ 232 bilhões. Com a centralização do câmbio, não mais teriam como rolar essa dívida. Que banco ousaria fazer novos empréstimos a mutuários de um país que pode proibir o pagamento de juros e amortizações assim da noite para o dia?
E por mero capricho ou espirro de um Gustavo Franco ou de um Itamar Franco?
Henrique Meirelles compara: A percepção do mercado é a de que o controle cambial constitui um suicídio cambial. E quem é que vai fazer empréstimos ou renovar papagaios para um devedor desequilibrado que ameaça dar um tiro na própria cabeça?
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